William Crookes – parte III


 


 

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                     Foto: Acervo CMP

Capítulo XI

Mas a fotografia é tão impotente para representar a beleza perfeita do rosto de Kátie, quanto as próprias palavras o são para descrever o encanto de suas maneiras. A fotografia pode, é verdade, dar um desenho do seu porte; mas como poderá ela reproduzir a pureza brilhante de sua tez ou a expressão sempre cambiante dos seus traços, tão móveis, ora velados pela tristeza quando narra algum acontecimento doloroso da sua vida passada, ora sorridente, com toda a inocência de uma menina, quando reúne os meus filhos ao redor de si, e os diverte contando-lhes episódios das suas aventuras na Índia?

Vi  tão bem Kátie, recentemente, quando estava alumiada pela luz elétrica, que me é possível ajuntar traços às diferenças que, em um precedente artigo, estabeleci entre ela e a sua médium.

Tenho a mais absoluta certeza de que a Srta. Cook e Kátie são duas individualidades distintas, pelos menos no que diz respeito aos seus corpos. Vários pequenos sinais, que se acham no rosto da Srta. Cook, não existem no de Kátie. A cabeleira da Srta. Cook é de um castanho tão forte que parece quase preto; um cacho da cabeleira de Kátie, que tenho à vista, e que ela me permitiria cortar de suas tranças luxuriantes, depois de ter seguido com os meus próprios dedos até o  alto da sua cabeça e de me  haver convencido de que ali nascera, é de um rico castanho dourado.

Uma noite, contei as pulsações de Kátie; o pulso batia regularmente 75, enquanto que o da Srta. Cook, poucos instantes de. atingia a 90, seu número habitual. Auscultando o peito de Katie, eu ouvia um coração bater no interior, e as suas pulsações, ainda mais regulares que as do coração da Srta. Cook,  quando, depois da sessão, ela me permitia igual verificação.

Examinados da mesma maneira, os pulmões de Katie mostraram-se mais sãos que os da  médium, pois, no momento que fiz a experiência, a Srta. Cook seguia o tratamento medico por motivo de uma grave bronquite.

Os leitores acharão, sem dúvida, interessante que as suas narrações e as do Sr. Ross Church, acerca da aparição de Kátie, venham reunir-se às minhas, pelo menos as que posso publicar.

Quando chegou o momento de Kátie nos deixar, pedi-lhe o obséquio de ser eu o último a vê-la. Conseguintemente quando ela chamou a si cada pessoa da sociedade e lhes disse algumas palavras em particular, deu instruções gerais sobre nossa direção futura e sobre a proteção a dispensar à Srta. Cook. Dessas instruções, que foram  estenografadas, cito a seguinte: “O Sr. Crookes sempre agiu muito bem, e é com a maior confiança que deixo Florence em suas mãos, perfeitamente convicta de que não faltará à confiança que tenho nele. Em todas as circunstâncias imprevistas o Sr. Crookes poderá agir melhor do que eu mesma, porque tem mais força.”

Tendo terminado as suas instruções, Kátie convidou-me a entrar no gabinete com ela, e permitiu-me demorar nele até ao fim. Depois de ter fechado a cortina, ela conversou comigo durante algum tempo, em seguida atravessou o quarto para ir até à ir à Srta. Cook, que jazia inanimada no assoalho; inclinando-se para ela, Katie tocou-a e disse-lhe: “Acorda, Florence, acorda! É preciso que eu te deixe agora!”

A Srta. Cook acordou e, em lágrimas, suplicou a Katie que ficasse algum tempo ainda: “Minha cara, não posso; a minha missão está cumprida; Deus te  abençoe!” – respondeu Kátie, e continuou a falar à Srta. Cook. Durante alguns minutos elas conversaram juntas, até que enfim as lágrimas da Srta. Cook a impediram de falar. Seguindo as instruções de Kátie, precipitei-me para suster Cook que ia cair sobre o assoalho e que soluçava convulsivamente. Olhei ao redor de mim, mas Kátie com o seu vestido branco, tinha desaparecido. Logo que a Srta. Cook ficou bastante calma, trouxeram luz, e a conduzi para fora do gabinete.

As sessões quase diárias, com que a Srta. Cook me favoreceu ultimamente, muito esgotaram as suas forças, e desejo patentear, o mais possível, os obséquios que lhe devo pelo seu empenho em me ajudar nas experiências.

A qualquer prova que eu propusesse, concordava ela em submeter-se com a maior boa vontade; a sua palavra é franca e viva e vai diretamente ao assunto. Nunca vi a menor coisa que pudesse assemelhar-se à mais ligeira aparência do desejo de enganar. Na verdade não creio que ela pudesse levar uma fraude a bom fim, porque se o tentasse seria prontamente descoberta, por ser completamente estranho à sua natureza um tal modo de proceder.

E quanto a imaginar que uma inocente colegial de 15 anos tenha sido capaz de conceber e de pôr em prática durante três anos, com grande sucesso, uma tão gigantesca impostura como esta, e que durante esse tempo se tenha submetido a todas as condições que se exigiram dela, que tenha suportado as pesquisas mais minuciosas, que tenha consentido ser examinada a cada momento, fosse antes, fosse depois das sessões; que tenha obtido ainda mais sucesso na minha própria casa do que na casa de seus pais, sabendo que ia para ali, expressamente com o fim de se submeter a rigorosos ensaios científicos. E quanto a imaginar que a Kátie King dos três últimos anos é o resultado de uma impostura, isso faz mais violência à razão e ao bom senso, do que crer que Kátie King é o que ela própria afirma ser.

Não me seria conveniente concluir este artigo sem agradecer igualmente ao Sr. e à Srª Cook pelas grandes facilidades que me proporcionaram para poder prosseguir nas minhas observações e experiências. Os meus agradecimentos e os de todos os espiritualistas são também devidos ao Sr. Charles Blackburn, pela sua generosidade que permitiu à Srta. Cook consagrar todo o seu tempo ao desenvolvimento dessas manifestações, e, em último lugar, ao seu exame científico.”

Homenagem à William Crookes

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Reprodução Web
William Crookes

“Há cerca de quatro anos tive a intenção de consagrar um ou dois meses, somente, ao trabalho de certificar-me se certos fatos maravilhosos, dos quais tinha ouvido falar, poderiam sustentar a prova de um exame rigoroso.

Mas tendo logo chegado à mesma conclusão, como todo o pesquisador imparcial, isto é, que “havia alguma coisa ali”, não podia mais, eu, estudante das Leis da Natureza, recusar-me a continuar nessas pesquisas.”

“Foi assim que, alguns meses se tornaram em alguns anos e se eu pudesse dispor de todo tempo, é provável que esse. pesquisas ainda prosseguissem.

 

Comentamos:

O estudo levado a efeito por esse grande sábio, cercado de todos os cuidados, já mencionados nesta biografia, e dentro da mais perfeita técnica por ele imaginada, abriu enorme “brecha” no preconceito científico de seus colegas, ingleses e de outras nações, que se vinham debatendo contra o Espiritismo nascente, essa “brecha” vem-se alargando, cada vez mais.

O livro de William Crookes, “‘Fatos Espíritas”, transformou-se “dique poderoso”, fazendo frente aos seus colegas materialistas, na defesa do Espiritismo, cujos efeitos se prolongaram e prolongarão pelos tempos afora.

A publicação de seus trabalhos científicos, realizados durante anos consecutivos com o auxilio de uma médium ainda moça,  mas de grande valor, deu golpe de morte no materialismo da época, a chamada – ciência oficial”.

Seu grande e profícuo trabalho nesta área fortaleceu o esforço de Allan Kardec em favor da Nova  Revelação, através “O Livro dos Espíritos”, “O Evangelho Segundo o Espiritismo” e toda a nomenclatura de livros espíritas, então existentes, mas que muito cresceram através dos tempos, principalmente no nosso querido Brasil.

E vem daí a nossa homenagem a essa criatura invulgar, William Crookes, e a seus médiuns, que o ajudaram em tão difícil empresa, os quais sofreram profundas amarguras, praticadas contra eles pelos materialistas e por criaturas pertencentes a outras religiões, que dominavam os povos do Ocidente naquela época.

Honra, portanto, a todas essas irmãs e irmãos, para quem pedimos a proteção divina.

Comentário Final:

Todos os médiuns e cultores do Espiritismo que aqui enumeramos, a começar pelo Dr. J. Larkin, Jonathan Koons, Margarida e Catarina Fox, e, por último, Srta. Florence Cook, sofreram remoques, críticas, infâmias e injustiças.

Seus nomes, assim como os de seus familiares, foram difamados publicamente, ocasionando, em alguns casos, sua desgraça moral e material, como aconteceu ao Dr. J. Larkin e a Jonathan Koons, que perderam todos os bens que possuíam.

A lista dos infelizes pioneiros do Espiritismo não termina aqui, muitos outros os sucederam e ela continuará a aumentar pelos tempos afora.

Glória para todos!

 



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Fonte: Em Prol da Mediunidade

Pequena História do Espiritismo de Henrique Magalhães



 

 

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