William Crookes – parte II

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                                                                 Reprodução Web


Capítulo XI


Pensando, pois, que tinha um espírito perto de mim, mas sim uma senhora,  pedi-lhe permissão de tomá-la nos meus braços, a fim de poder verificar as interessantes observações que um experimentador ousado fizera recentemente, de maneira tão sumária. Essa permissão foi-me graciosamente dada, e, por conseqüência, utilizei-me dela, convenientemente, como todo o homem bem educado o teria feito nessas circunstâncias. O Sr. Volckman ficará satisfeito ao saber que posso corroborar a sua asserção de que o “fantasma” (que, afinal, não fez nenhuma resistência) era um ser tão material quanto a própria Srta. Cook. Mas que vai seguir mostrará quão fundamento tem um experimentador, por maior cuidado que nas suas observações, em aventurar-se a formular uma importante conclusão quando as provas não existem em quantidade suficiente.

Kátie disse então que, dessa se julgava capaz de mostrar-se ao mesmo tempo que a Srta. Cook. Abaixei o gás, e, em seguida, com a minha lâmpada fosforescente penetrei no aposento que servia  de gabinete.

Mas eu  tinha pedido previamente a um dos meus amigos, que é hábil estenógrafo, para anotar toda a observação que eu fizesse enquanto estivesse no gabinete, porque bem conhecia eu a importância que se liga às primeiras impressões, e não queria confiar à minha memória mais do que fosse necessário: as suas notas acham-se neste momento perante mim.

Entrei no aposento com precaução: estava escuro, e foi pelo tato que procurei a Srta. Cook; encontrei-a de cócoras, no assoalho.

Ajoelhando-me, deixei o ar entrar na lâmpada, e, à sua claridade, vi essa moça vestida de veludo preto, como se achava no começo da sessão, e com toda a aparência de estar completamente insensível. Não se moveu quando lhe tomei a mão; conservei a lâmpada muito perto do seu rosto, mas continuou a respirar tranquilamente.

Elevando a lâmpada, olhei em torno de mim e vi Kátie, que se achava em pé muito perto da Srta. Cook e por trás dela. Kátie estava vestida com uma roupa branca, flutuante, como já a tínhamos visto durante a sessão. Segurando uma das mãos da Srta. Cook na minha e ajoelhando-me ainda, elevei e abaixei a lâmpada, tanto para alumiar a figura inteira de Kátie como para plenamente convencer-me de que eu via, sem a menor dúvida, a verdadeira Kátie, que tinha apertado nos meus braços alguns minutos antes, e não o fantasma de um cérebro doentio. Ela não falou, mas moveu a cabeça, em sinal de reconhecimento. Três vezes examinei cuidadosamente a Srta. Cook, de cócoras, diante de mim, para ter certeza de que a mão que eu segurava era de fato a de uma mulher viva, e três vezes voltei a lâmpada para Kátie a fim de a examinar com segurança e atenção, até não ter a menor dúvida de que ela estava diante de mim. Por fim a Srta. Cook fez um ligeiro movimento e imediatamente Kátie deu um sinal para que me fosse embora. Retirei-me para uma outra parte do gabinete e deixei então de ver Kátie, mas só abandonei o aposento depois que a Srta. Cook acordou e que dois dos assistentes entrassem com luz.

Antes de terminar este artigo, desejo salientar algumas diferenças que observei entre a Srta. Cook e Kátie. A estatura de Kátie era variável: em minha casa a vi maior de 6 polegadas do que a Srta. Cook. Ontem à noite, tendo os pés descalços e não se apoiando na ponta dos pés, ela era maior 4 polegadas e meia do que a Srta. Cook e tinha o pescoço descoberto; a pele era perfeitamente macia ao tato e à vista, enquanto que a Srta. Cook tem no pescoço cicatriz que, em circunstâncias semelhantes, se vê distintamente, sendo áspera ao tato. As orelhas de Kátie não são furadas, enquanto que as da Srta. Cook trazem ordinariamente brincos. A cor de Kátie é muito branca enquanto que a da Srta. Cook é muito morena. Os dedos de Kátie são muito mais compridos do que os da Srta. Cook  e seu rosto to é também maior. Nas formas e maneiras de se exprimir há também  diferenças assinaladas.

A saúde da  Srta. Cook não é assaz boa para lhe permitir dar, antes de algumas semanas, outras sessões experimentais como essas, e em consequência disso insistimos fortemente par que ela tivesse um repouso completo antes de recomeçar a campanha

de experiências de que dei uma exposição sumária, e, em próximo tempo, espero poder fazer conhecer os resultados.”

Última aparição de Katie King, sua fotografia com auxílio da luz elétrica”

‘Tendo eu tomado r ativa nas últimas sessões da Srta. Cook, e obtido muito bom êxito na produção de numerosas fotografias de Kátie King, com o auxilio da luz elétrica, julguei que a publicação de alguns detalhes seria interessante para os espiritualistas.

Durante a semana que precedeu a partida de Kátie, ela deu sessões em minha casa, quase todas as noites, a fim de me permitir fotografá-la à luz artificial. Cinco aparelhos completos de fotografia foram pois preparados para esse efeito. Eles consistiam em cinco câmeras escuras, uma do tamanho de placa inteira, uma de meia placa, uma de quarta, e de duas câmeras estereoscópicas binoculares, que deviam todas ser dirigidas sobre Kátie ao mesmo tempo, cada vez que ela ficasse e em posição de se lhe obter o retrato. Cinco banhos sensibilizadores e fixadores foram empregados, e grande número de placas foram preparadas previamente, prontas a servir, a fim de que não houvesse nem hesitação nem demora durante as operações fotográficas, que eu mesmo executei, assistido por um ajudante.

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         Foto: Acervo CMP

A minha biblioteca serviu de câmara escura: ela possuía uma porta de dois batentes que se abria para o laboratório, um desses batentes foi levantado dos seus gonzos, e uma cortina foi colocada em seu lugar, para permitir a Kátie entrar e sair facilmente. Os nossos amigos, que se achavam presentes, estavam sentados no laboratório, em frente à cortina, e as câmaras escuras ficaram colocadas um pouco atrás deles, prontas a fotografar Kátie quando ela saísse, e a tomar igualmente o interior do gabinete, todas as vezes que a cortina fosse levantada para esse fim.

Cada noite havia 3 ou 4 exposições de placas nas 5 câmaras escuras, o que dava pelo menos 15 provas por sessão. Algumas se estragaram no desenvolvimento, outras ao regular a luz; apesar de tudo tenho 44 negativos, uns medíocres, alguns nem bons nem maus e outros excelentes.

Kátie recomendou a todos os assistentes que ficassem sentados e observassem essa condição; somente eu não fui compreendido nesta medida; depois de algum tempo ela permitiu-me fazer o que eu desejasse, tocá-la, entrar no gabinete e dele sair, quase todas as vezes que eu quisesse.

Acompanhei-a muitas vezes ao gabinete e algumas vezes vi Kátie e a médium, ao mesmo tempo; geralmente, porém, eu só encontrava a médium em letargia, e deitada no assoalho; Kátie, com o seu vestuário branco, tinha instantaneamente desaparecido.

Durante esses seis últimos meses, a Srta. Cook fez-nos numerosas visitas, e demorava-se algumas vezes uma semana em nossa casa; não trazia consigo senão uma pequena mala de mão. que não fechava à chave; durante o dia estava em companhia da Sr” Crookes, na minha ou na de algum outro membro da minha família; não dormia só, não tinha ocasião de nada preparar, mesmo de um caráter menos aperfeiçoado, que fosse apto para representar papel de Kátie King.

Eu mesmo preparei e dispus a  minha biblioteca assim como a câmara escura, e, como costume, depois que a Srta. Cook jantava e conversava conosco, ela logo se dirigia ao gabinete; a seu pedido eu fechava à chave a  segunda porta, guardando a chave comigo durante toda a sessão: então, abaixava-se o gás e deixava-se a Srta. Cook na escuridão.

Entrando no gabinete, a Srta. Cook deitava-se no assoalho, repousando a cabeça sobre um travesseiro, e logo depois caia em letargia. Durante as sessões fotográficas, Kátie envolvia a  cabeça da sua médium com um chale, para impedir que a luz  caísse sobre o rosto. 

Várias vezes levantei um lado da cortina, quando Kátie estava de pé, muito perto, e então não era raro que as 7 ou 8 pessoas que estavam no laboratório pudessem ver, ao mesmo tempo, a Srta. Cook e Kátie, à plena claridade da luz elétrica. Não podíamos então ver o rosto da médium por causa do chale, mas percebíamos as suas mãos e pés; vimo-la mover-se penosamente sob a influência desta luz intensa, e. por momentos, ouvíamos-lhe os gemidos.

Tenho uma prova de Kátie e da médium fotografadas juntamente; mas Kátie está colocada diante da cabeça da Srta. Cook.

Enquanto eu tomava uma parte ativa nessas sessões, a confiança que Kátie tinha em mim aumentava gradualmente, a ponto da não querer mais prestar-se à sessão, salvo se eu me encarregasse das disposições a tomar, dizendo que queria sempre ter-me perto dela e perto do gabinete. Desde que essa confiança ficou estabelecida, e quando ela teve a satisfação de estar certa de que eu cumpriria as promessas que lhe fazia, os fenômenos  aumentaram muito em força e foram-me dadas provas que me seriam impossíveis obter se eu me tivesse aproximado da médium de maneira diferente.

Kátie me interrogava muitas vezes a respeito das pessoas presentes às sessões, e sobre a maneira de serem colocadas, pois nos últimos tempos ela tinha-se tomado muito nervosa, em consequência de certas sugestões imprudentes, que aconselhavam empregar a força, para tornar as pesquisas mais científicas.

Uma das fotografias mais interessantes é aquela em que estou em pé, ao lado de Kátie, tendo ela o pé descalço sobre determinado ponto do assoalho . Vestiu-se em seguida a Srta. Cook como Kátie; ela e eu nos colocamos exatamente na mesma posição, e fomos fotografados pelas mesmas objetivas colocadas perfeitamente como na outra experiência, e alumiados pela mesma luz. Quando os dois esboços foram colocados um sobre o outro, as duas fotografias minhas coincidiram perfeitamente quanto ao porte, etc., mas Kátie é maior meia cabeça do que a Srta. Cook, e perto dela, Kátie parece uma mulher gorda. Em muitas provas o tamanho do seu rosto e a estatura do seu corpo diferem essencialmente da médium, e as fotografias fazem ver vários outros pontos de dessemelhança.

 



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Fonte: Em Prol da Mediunidade

Pequena História do Espiritismo de Henrique Magalhães

 



 

 

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