Visita a Francisco Cândido Xavier

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Reprodução Web


 


Três meses após a inauguração do Hospital “Casa da Mãe Pobre”, em março de 1948, fomos visitar, pela primeira vez, o querido irmão Francisco Cândido Xavier. Viagem de trem, com paradas em inúmeros lugares; parecia que nunca chegaria ao fim. De Belo Horizonte seguimos de “jardineira” (pequeno ônibus) para Pedro Leopoldo, onde chegamos à tardinha. O único hotel que existia na cidade, de hotel só tinha o nome, pois era, na verdade, uma pensão de última classe. Prédio velho, com piso de madeira, com telhado, mas sem forro. Não tinha vigia à noite.

“Como poderemos entrar, quando voltarmos de madrugada?” Perguntamos à proprietária. “Vamos à uma reunião no Centro Espírita Luiz Gonzaga e as reuniões acabam muito tarde.”

“Pode chegar a qualquer hora”, respondeu-nos, “a porta fica só encostada … “

Pedimos um quarto de solteiro, individual, pagamos e íamos saindo, quando a hoteleira informou:

“Seu quarto é este aqui” e indicou-nos uma porta em frente a uma luz vermelha.

Agradecemos e saímos rua abaixo, para jantar em pequeno mas asseado restaurante que o motorista nos havia indicado. Em seguida, fomos à casa do Chico, onde nos informaram que nos dirigíssemos ao Centro Espírita Luiz Gonzaga. Lá encontramos o grande médium.

O Centro Espírita funcionava em pequena e humilde casa com piso de terra batida e telha vã.

O mobiliário constava de pequena mesa de pinho bastante usada, uma cadeira, que ficava na cabeceira e três bancos toscos em volta da mesa.

Foi o primeiro Centro Espírita que o Chico pôde organizar. Tudo transpirava pobreza, mas irradiava paz e confiança.

O Chico lá estava, colocando em ordem o receituário e grande quantidade de cartas que solicitavam conselhos e orientações.

Fomos recebidos pelo Chico com demonstração de alegria e um fraternal abraço. Conversamos durante longo tempo, enquanto na rua a chuva caía a cântaros. De repente, apareceu nos fundos, uma senhora que perguntou: “Você quer café, Chico?” Ao que ele respondeu: “Quero, mas traz também para o meu amigo.” A senhora em questão era uma sua irmã.

Não se passaram mais de cinco minutos e a mesma voz voltou a dizer: “Não temos xícaras, Chico!” E ele: “Não faz mal, traz em canecas mesmo … “

As canecas eram pequenas latas de ervilhas com asas de folha aplicadas.

Tomamos a bebida tão quentinha e saborosa que jamais esquecemos aquele momento. A seguir, o Chico retomou a conversa, comentando:

“O Fígner (Frederico Fígner) deu-me a casa ao lado, sem que eu lhe pedisse. Não ficava bem eu recusá-la. Tem sala, dois quartos, cozinha e banheiro. Mas uma casa precisa de uma mulher para tratá-la, não acha? E serviço atinente às mulheres.”

“Você tem razão, Chico.”

“Pois é” – continuou ele – “por esse motivo dei a casa a uma irmã que se casou há pouco tempo. O que é que você acha?”

“Fez  muito bem” apoiamos. “Nós homens, moramos em qualquer lugar e não estranhamos. Já as mulheres nutrem o natural desejo de possuir uma casa para moradia, nem que seja um barraco!”

Em seguida começamos a ajudar o Chico em seu labor, para colocar o receituário em ordem. Dentro em pouco, chegou o Presidente do grupo, Dr. Rômulo Joviano que também era seu chefe na repartição onde o Chico trabalhava. O Chico era funcionário do Ministério da Agricultura.

O Presidente sentou-se à cabeceira da mesa, fez emocionante prece e deu início à reunião. Enquanto ele falava sobre o Evangelho, o Chico ia recebendo o receituário seguido das Mensagens Espirituais. Cremos que eram vinte horas quando começou a reunião, terminando a uma hora da madrugada.

Entre as mensagens havia uma a nós dirigida, de Emmanuel, abaixo transcrita, que foi lida pelo Chico:

“Henrique, meu irmão,

Que o Senhor nos abençoe a todos. Desnecessário dizer-te da esperança com que o

Plano Superior aguarda o desdobramento do serviço da Casa abençoada da Mãe Pobre.

As obras do bem falam por si mesmas, tanto quanto as árvores que se expressam pelos frutos. Unamo-nos, assim, em espírito, para a consecução dos trabalhos em perspectiva, convencidos de que a bondade do Senhor nos segue de perto. Espiritismo sem ação no bem comum não poderá alcançar as finalidades a que se propõe. Se fé sem edificação é morta, as edificações necessitam desse calor divino de fraternidade, transbordante no santuário de amor evangélico a que confiaste as melhores forças.

Guarda-te na perseverança até o fim. O ministério encontra-se apenas iniciado e o mesmo Senhor que te habilitou para o trabalho, em conjunto com outros amigos abnegados, enviará o suprimento necessário à consolidação do serviço que nos polariza as esperanças.

Se o mundo atual sofre o assédio das sombras, que profetizam infortúnios e ruínas, convertamo-nos em semeadores do mundo melhor de amanhã. Sobre os vales em que os infelizes desencadearam a guerra nascem os germes do pão futuro. Sejamos nós outros lavradores felizes da paz construtiva e regeneradora.

Não importa a incompreensão que nos possa visitar e atingir. A obra pertence ao Senhor e o Senhor apenas nos pede corações fervorosos e braços diligentes, a fim de preservá-la e estendê-la na realização do Reino Divino entre nós.

Hoje, luta e dificuldades. Amanhã, alegria da colheita.

Portanto, caminhemos desassombrados, certos de que permanecerá conosco o Divino amigo que nos prometeu assistência amorosa até o fim dos séculos.

Ass. Emmanuel.”

Finda a leitura, o Presidente dirigiu-nos palavras de conforto, tendo-se em vista os dizeres da comunicação.

Terminados os trabalhos, todos saímos debaixo de chuva torrencial, que não parava desde nossa entrada naquela Casa de Amor Cristão. O Chico, com sua proverbial bondade, acompanhou-nos até o hotelzinho, abraçando-nos na despedida.

Ao entrar no quarto que tínhamos alugado, e para uma só pessoa, ficamos deveras surpresos ao deparar com um homem dormindo a sono solto numa outra cama. Todavia, como na noite anterior quase não tínhamos dormido, em face dos solavancos do trem e paradas consecutivas, deitamo-nos para o esperando sono reparador.

Daí a minutos, no entanto, acordamos com comichão e vergões no pescoço.

Prestando atenção acurada, verificamos que se tratava de repentino ataque de percevejos. Levanta·· mos, pegamos nossa roupa e dirigimo-nos à sala estar. Sentamos numa cadeira de balanço e ali descansamos até a madrugada, quando então levantamos, para tomar a primeira “jardineira” de regresso a Belo Horizonte.

Todos esses contratempos, porém, não conseguiram baixar o nosso moral.

A mensagem que lêramos por várias vezes causava-nos um bem-estar indefinível e permanente. Não nos saía da cabeça as palavras do Mensageiro do Céu: “O ministério encontra-se apenas iniciado …  o mesmo que dizer: “Futuramente deverá ser ampliado”. 

E foi o que realmente aconteceu, com a criação dos seis Departamentos de Assistência à criança e a idosos, que funcionam hoje no Rio de Janeiro e em Teresópolis .

O Senhor nos ilumine.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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