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Um caso a ponderar
6 de novembro de 2013 Creche “Isabel a Redentora”, Teresópolis, RJ

 


crianaça

             Reprodução Web

Deviam ser 18 horas e o lusco-fusco prenunciava a noite próxima. Chegando a uma casa de cômodos, em Copacabana, batemos palmas e perguntamos a uma senhora que nos atendeu, se ali morava Dona Maria das Dores. A resposta foi afirmativa e enquanto ela demandava o interior para chamar a mulher, pensávamos sobre a maneira de ajudar a criatura.

Na semana anterior, Dona Maria tinha deixado a Maternidade “Casa da Mãe Pobre”, com uma criança ao colo, nascida naquela Instituição. Durante os dias que esteve internada fez menção de doar a filhinha recém-nascida a quem a quisesse adotar, tendo em vista – afirmava – possuir mais quatros filhos menores. Aquela era a quinta, aumentando, portanto, suas dificuldades.

Sabedora da resolução da parturiente, uma cooperadora da Entidade conseguiu interessar um casal sem filhos, bem situado na vida, o qual resolveu adotar a criança. O marido exultou ao tomar conhecimento da boa nova, pois, sendo a esposa estéril, ia enfim consolidar o seu sonho de ser pai.

A referida senhora foi apresentada à parturiente.

Era o primeiro passo a ser dado. Tudo ia correndo bem entre elas, quando D. Maria começou a chorar. A cooperadora da Casa, que tinha providenciado o encontro, perguntou-lhe o motivo do seu estado emocional, ao que ela respondeu que estava arrependida de ter prometido doar a filha.

“Bem – respondeu a cooperadora – Se o caso é esse, não queremos a sua infelicidade. Você fica com sua filha”. E arrematou: “Trata bem dessa menina. Ela é um encanto!”

E era mesmo. Após amistosa conversação, as duas senhoras se despediram.

Ao tomarmos conhecimento do caso, ficamos sensibilizados com a coragem da mãe e louvamos o seu procedimento, prometendo a nós mesmos visitá-la na primeira oportunidade, ajudando-a no que nos fosse possível. Visitamo-la quinze dias depois.

Quando Dona Maria das Dores chegou ao patamar da casa de cômodos acima referida, perguntou:

“E o senhor que está me procurando?”

“Sim, minha senhora, sou eu mesmo.” E prosseguirmos: “Como está passando a menina?”

Ante sua perplexidade, indagamos:

“Não foi a senhora que deu à luz uma menina, na “Casa da Mãe Pobre”?

“Sim, nasceu-me lá uma menina, por sinal muito robusta” .

“E como vai ela?” indagamos novamente.

Ante essa pergunta em tom firme, a mulher ficou extática, meditando na resposta. Momentos após esclareceu:

“O senhor vai me entender; a pobreza entrou no meu lar, obrigando-me a entregar a filhinha na “Casa dos Expostos”.

Estarrecido com o que acabávamos de ouvir, faltou-nos coragem para continuar o diálogo. Simplesmente silenciamos. Para que admoestá-la, se o erro já estava consumado?

E durante a viagem de volta, perguntava a mim mesmo qual o motivo que levou a malvada a negar a adoção da menina a um casal sem filhos, que ia adotá-la e enchê-la de mimos para, dias após, entregá-la miseravelmente a uma Casa de Caridade que, embora a criasse com relativo conforto, jamais lhe poderia oferecer o carinho que os pais lhe proporcionariam?

Em uma reunião posterior com as cooperadoras, que compunham a “Legião Protetora da Mãe Pobre”, relatamos o fato. Algumas lágrimas afloraram aos olhos daqueles corações generosos. E ali mesmo foi resolvido que as futuras mães que demonstrassem desejo de se livrar dos filhos deveriam ser atendidas sem demora, pois quando uma criatura toma resolução de tal gravidade, criando em seu íntimo pensamentos dessa natureza, é muito difícil modificá-la.

E assim terminou esse episódio triste e doloroso.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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