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Remontando às Origens – parte IV (final)
31 de janeiro de 2014 Creche “Isabel a Redentora”, Teresópolis, RJ

 


Capítulo VIII

espiritos

Reprodução Web

Ainda que as personalidades dos mortos, que se manifestavam assim pertencessem a todas as classes da sociedade, elas se mostravam acordes em exortar o médico a fazer conhecer, publicamente, as manifestações espíritas que se verificavam em sua e insistiam para que convidasse pessoas a assisti-las, porque, diziam elas, havia soado a hora em que os homens deviam se convencer, pelos fatos, da existência e da sobrevivência da alma. A este propósito, elas prediziam o inicio iminente de uma nova época em que a humanidade inteira reconheceria a possibilidade de se comunicar com os espíritos dos mortos e em que essas comunicações seriam livremente praticadas em todas as regiões da Terra, época de transformação e de renovação para o progresso dos povos.

Apesar dessas exortações renovadas com persistência, o Dr. Larkin, com a aprovação de sua esposa, continuava absolutamente contrário à divulgação dos fatos e se guardava de convidar alguém para assisti-los, pois temia, com efeito, comprometer seriamente a sua reputação profissional, arruinando-se e arruinando a sua família.

Foi então que o espírito do grumete imaginou o meio de obrigar o médico a se curvar à vontade das inteligências espirituais e esse resultado alcançou, ainda que de modo pouco confortável para a pobre sonâmbula, da qual ele deslocou, em um instante, os braços, os joelhos, os fêmures, reduzindo-a a um monte quase disforme de membros torcidos, sem que, todavia, ela experimentasse qualquer dano.

O Dr. Larkin, embora fosse um hábil cirurgião, viu-se impotente para colocar, nos seus lugares, todos esse membros contorcidos, tendo que chamar um dos seus colegas, em seu auxílio.

Quando os esforços dos dois práticos conseguiram reconstruir o corpo da sonâmbula, e o cirurgião ajudante ia despedir-se, o “grumete” se manifestou de novo, ordenando ao segundo médico que não partisse. Tudo ia ser feito de novo. E isto dizendo, deslocou logo todos os membros de Mary Jane sob o olhar estupefato da nova testemunha.

É preciso aditar que o fenômeno se renovou por várias vezes, disso resultando que o Dr. Larkin viu-se obrigado a deixar entrar em sua casa outras testemunhas.

Não foi mais possível guardar segredo sobre o que se produzia e logo toda a região soube dos acontecimentos que ali se verificavam.

Como acontece comumente em tais circunstâncias, os cochichos sobre esses fenômenos autênticos, passando de boca em boca, se transformaram e se deformaram, ganhando feição de romances diabólicos e fantásticos nos quais a calúnia e o escândalo se infiltraram malignamente, o que fez com que a reação clerical não tardasse a se fazer sentir vigorosamente.

Assim, começaram as primeiras perseguições contra a desgraçada família.

Em dezembro de 1847 nove senhores, dirigidos por um pastor protestante, se apresentavam no domicílio do Dr. Larkin, declarando-se representantes de uma Comissão de Inquérito constituída com o fim de investigar os boatos  escandalosos que circulavam na cidade, envolvendo práticas ocultas que tinham lugar na casa. O Dr. Larkin, sem contestar validade dessa arbitrária Comissão de Inquérito, embora sem aceitá-la, acolheu o grupo amistosamente e descreveu serenamente as fases evolutivas e fenômenos que se produziam em sua casa, abstendo-se de comentar. A Comissão não satisfez com as suas explicações e se reportou aos boatos desagradáveis que circulavam na região, exigindo que o médico declarasse culpado ou demonstrasse a sua inocência.

O Dr. Larkin indignou-se com essas exigências e recusou a  responder, porém ofereceu-se a hospedar em seu lar, durante uma semana, duas ou três pessoas indicadas pela Comissão.

O oferecimento era mais do  que razoável, mas os seus membros não o aceitaram, declarando que pretendiam introduzir os inquisidores na residência do Dr. Larkin a qualquer hora do dia e da noite. E o fraco médico rendeu-se às suas pretensões.

Resultou daí que, durante vários meses, a infeliz moça foi torturada, dia e noite, por toda a sorte de imposições insolentes e audaciosas, por ordens peremptórias para que evocasse tal ou qual espírito indicado pelos inquisidores ou deslocasse os seus próprios membros, ou ainda que reproduzissem, de imediato, os fenômenos de batidas, ruídos, deslocamentos de móveis, transportes de objetos.

A tranqüilidade doméstica da desgraçada família não existia mais. Ninguém tinha o direito de cumprir os seus afazeres. Enquanto isso a reputação do Dr. Larkin suportava um rude golpe.

Não podendo suportar por mais tempo tais vexames, o médico  reuniu finalmente um pouco energia e declarou aos inquisidores improvisados que exigia se fizessem investigações sistemáticas de maneira científica. Se visse atendida a sua proposta, não permitiria mais que se introduzissem na casa dele, quem quer fosse.

A firmeza do Dr. Larkin teve um feliz resultado, pois os inquisidores aceitaram a sua proposta. Indicaram para uma empreitada de uma semana o Ver. Thacher e a sua esposa.

Esse pastor pertencia à ortodoxia mais rígida e se revelara um implacável adversário das práticas “tenebrosas”, ocorridas na residência do Dr. Larkin. Desde a primeira tarde de sua chegada, propôs que as pessoas se reunissem em tomo do leito da moça, enquanto ele fazia as invocações rituais. Mary Jane caiu em transe sonambúlico e orou a Deus em seu favor com um tal fervor de sentimento e tanta elevação de pensamento que os olhos do pastor e de todos os presentes encheram-se de lágrimas.

Começava-se sob felizes auspícios.

Durante a semana de sua permanência na casa, o Sr. e Srª Thatcher tiveram numerosas oportunidades de observar toda a sorte de manifestações e assim declararam ao Dr. Larkin estar inteiramente convencidos da sinceridade e da pureza das suas e das intenções de sua família, bem como da autenticidade dos fenômenos supranormais que eram produzidos por intermédio da sonâmbula.

Limito-me a relatar uma única das manifestações a qual assistiram os representantes da Comissão de Inquérito.

Certo dia em que o Rev. Thatcher, com a sua esposa e o casal Larkin se achavam perto da cama de Mary Jane que, em estado sonambúlico, respondia aos seus pedidos, o reverendo tirou o lenço do bolso para se assoar, mas uma força desconhecida o arrancou de suas mãos e o lenço subitamente desapareceu.

Ninguém se mexera no quarto e o olhar do reverendo estava, no momento, fixo na sonâmbula, o que demonstra que nenhum movimento dela lhe teria escapado.

O Rev. Thatcher obtemperou que o incidente tinha certamente uma causa sobrenatural e que, se o fenômeno pudesse ser investigado de um modo correto, teria uma decisiva importância para o inquérito de que estava encarregado.

Propôs então ao Dr. Larkin que se retirasse com ele para um outro cômodo, encarregando as duas senhoras de procurar o lenço, examinando, com cuidado, a moça, sua cama, suas roupas e o quarto todo.

Assim se fez, com resultado negativo, depois do que as senhoras transportaram a jovem para um outro dormitório.

O Rev. Thatcher e o Dr. Larkin, deram, por sua vez, minuciosa busca no quarto, depois de tomarem a precaução de fechar-lhe a porta.

Quando ficaram bem certos de que o lenço desaparecera levado por uma força sobrenatural, as pessoas reuniram-se de novo em torno do leito da sonâmbula. tomada, no momento, pelo grumete, que exprimiu ruidosamente seu contentamento pela confusão geral, acrescentando que o lenço “ele o havia transportado para o seu país, a Alemanha”.

Então o Dr. Larkin evocou o espírito de “Katy”, que vinha quase sempre pôr em ordem o tumulto das manifestações. E “Katy” se apresentou, mas quando foi interrogada a respeito do lenço desaparecido, respondeu nada saber a respeito. Se desejavam reavê-lo, a título de complemento de prova, deviam dirigir-se diretamente ao espírito que produzira o fenômeno.

O Rev. Thacher se interesso vivamente pelo fato e propôs que se seguisse o conselho de “Katy’.

Evocou-se novamente o espírito do grumete que depois de ter-se divertido a expensas do comissário inquisidor e de ter-se feito rogar longamente, prometeu trazer de volta o lenço no decorrer da noite, por volta de uma hora e meia da manhã. No que concerne à hora incômoda fixada pelo grumete para a restituição, importa notar que, quando prometia alguma coisa, cumpria escrupulosamente a sua palavra, mas gostava de marcar encontros em horas tão incômodas para gozar, como um garoto, do transtorno que causava ao seu semelhante.

Desde o momento em que o grumete fez a promessa até o cumprimento da mesma, por um excesso de precaução, não deixaram a moça sozinha. Foi novamente revistada no seu leito, igual cuidado tomando-se em relação à cama.

Em seguida, os experimentadores se colocaram em torno da mesma, revezando-se em algumas horas de sono.

Por volta de uma hora da madrugada, o espírito de “Katy” se manifestou pedindo que todos se conservassem acordados, pois que os “espíritos” tinham a obrigação de devolver o lenço.

Então as senhoras puseram a moça sentada na cama e estenderam os seus braços e mãos sobre os lençóis. Em seguida ligaram os seus braços às barras da  cama, com dois guardanapos, e maneira a imobilizá-los.

O grupo permaneceu em pé ao redor da sonâmbula, colocando-se o Rev. Thatcher aos pés da cama; para melhor fiscalizá-la de frente. Em dado momento fez-lhe uma pergunta e isso fazendo, estendeu para a frente a mão aberta, na qual, inesperadamente, surgiu o lenço desaparecido.

Ouviu-se ao mesmo tempo a voz do grumete que, rindo estrepitosamente, dirigiu ao reverendo estas palavras: “Eu vos devolvo este pedaço de pano que quereis conservar”. Tudo foi obra de uma fração de segundo; um momento antes a mão do clérigo estava vazia e um segundo após segurava o lenço desejado.

Ninguém o vira chegar, pois tinha-se materializado na própria mão do Rev. Thacher que, imediatamente, consultou o seu relógio. Os ponteiros marcavam exatamente uma hora e meia da madrugada. Alguns dias após, o Rev. Thatcher enviou uma circular a todos os pastores protestantes da região, descrevendo-lhes os fenômenos aos quais havia assistido, confessando-lhes, circunspectamente, sua convicção de que tinham origem sobrenatural. Esclareceu que o Dr. Larkin e a sua família não eram culpados de nenhuma fraude, de nenhuma mistificação, de nenhuma conivência e que os fenômenos produzidos em sua casa eram dignos de “uma investigação científica séria e cuidadosa”, acrescentando que todo o pesquisador tinha o dever de entregar-se a esses estudos com espírito sereno, despojando-se de toda a prevenção, de toda idéia preconcebida, e pedia a formação de uma comissão de inquérito composta de ministros do culto.

É de presumir-se que uma declaração tão explícita em favor da autenticidade dos fenômenos, assinada por quem mais os combatera, resolveria definitivamente o infeliz debate. Mas aconteceu algo de contrário e pior.

“Nenhum dos interessados levou em consideração a circular do Rev. Thatcher e alguns dias após, o Rev. Horace James – cujo nome é digno de ser transmitido à posteridade por sua infâmia – avocou a si os poderes legais e civis, necessários para liquidar a questão. (Não devemos nos esquecer de que o Espiritismo estava em sua fase de embrião).

Foi o verdadeiro difamador da família Larkin, cujo chefe quis aniquilar a qualquer preço.”

Praticamente não lhe concedeu defesa e jogou contra ele toda a população.

Não achando no Código Penal nenhum artigo que pudesse condenar o Dr. Larkin, foi-lhe infligida uma penalidade moral que, em virtude da época e da região em que o caso se passou. importava em sua ruína. Foi expulso da Igreja a qual pertencia, até que se decidisse a fazer uma declaração – retratação completa das práticas sacrílegas – segundo o pensamento deles – nas quais havia tomado parte.

Já idoso e sem meios de viver. assistiu ao falecimento da esposa. Srª Larkin, ralada de tanta, infâmias e sofrimentos.

Por fim, para não morrer de fome, o Dr. Larkin assinou: maldito documento de retratação.

A infeliz médium, Mary Jane, foi presa, sobre a imputação de necromancia. Embora fosse doente, foi arrastada diante do Tribunal e condenada a dois meses de prisão.

E o Dr. Larkin foi barbaramente difamado, perdendo totalmente a sua clientela. Foi um golpe terrível em sua vida.

Toda essa desgraça deve-se ao fato de ele e a médium exercerem o intercâmbio com nossos irmãos da Espiritualidade – o futuro Espiritismo.

Apesar de todas essas perseguições, a Doutrina dos Espíritos implantou-se no mundo, sob a égide de Allan Kardec e por obra  e graça de Deus, prossegue sua rota impetuosa em várias nações da Terra.

O Brasil acha-se à frente, atendendo a sua responsabilidade de ser o portador da missão que Jesus Cristo lhe concedeu: ser o porta-estandarte da implantação do Cristianismo no mundo da atualidade.

Deus seja louvado!

 



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Fonte: Em Prol da Mediunidade

Pequena História do Espiritismo de Henrique Magalhães

 



 

 

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