O garoto tarado

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                          Reprodução Web


 


Foi abandonado por sua genitora, na Maternidade “Casa da Mãe Pobre”, um menino que ficou na incubadeira para tratamento. Caso comum com algumas crianças que nasciam fraquinhas e ficavam na Entidade até se fortalecerem. Somente então eram entregues às suas mães.

Houve casos, porém, em que, quando desejávamos comunicar a essas genitoras que fossem buscar a criança, não eram elas encontradas. Diziam morar em locais imaginários e desapareciam para sempre. O menino a que nos referimos acima encaixa-se nessa situação.

Era um garotão forte e peitudo! Estava na Instituição havia 13 meses, quando a Diretora dos Serviços Médicos pediu-nos a retirada do Berçário da referida criança, sob a alegação de que, além de estar muito crescido, tinha as características de uma criança “tarada”.

“Por que a doutora acha que ele dá a idéia de um “tarado”?” perguntamos. Ao que ela respondeu:

“Porque ele não sorri para ninguém, conservando sempre um mutismo provocador.”

Não ligamos muito ao caso, por não estarmos certos do que ela afirmava.

Dias depois foi a vez do general Deusdedith Baptista da Costa, nosso particular e grande amigo, que também era Diretor da nossa Entidade, fazer o mesmo pedido, repetindo as mesmas razões a respeito da criança em foco, o que nos levou a pensar que a médica tinha “soprado” ao seu ouvido, para ele interferir no assunto .. E logo começamos a agir.

No dia seguinte fomos ao isolamento das crianças, para onde o garotão tinha sido transferido, devido aos fatos acima narrados. Junto ao berço começamos a puxar conversa e ele .’. nem te ligo!

Depois de várias tentativas sem resultado, fizemos-lhe cócegas em baixo de um dos bracinhos. Somente então se desfez num sorriso alegre e franco. Estava desfeito o engano. O garoto não era “tarado”, mas tão somente durão! Era uma criança sisuda.

Deus nunca nos faltou com a sua Misericórdia.

E foi assim que dois dias após, chegou à Instituição um casal para ver uma menina que também tinha sido abandonada. A esposa já a tinha visitado, mas desejava que o marido aprovasse a escolha. Por sorte ou por Deus, lá estava o nosso querido amigo General. Convidamos o casal a subir ao outro pavimento, onde se encontrava a menina, e aproveitamos a oportunidade para pedir ao nosso velho amigo e companheiro de lutas para nos acompanhar. A esposa segurou a menina ao colo e beijou-a com enternecimento, mostrando-a a seguir ao marido, que aprovou a escolha.

Depois de colocá-la no berço, convidamos o casal a ver o garotão que estava em pequeno quarto, ao lado. A senhora em questão ainda demonstrava reação, dizendo que preferia a menina.

Para tranquilizá-la, informei que somente desejava que o casal aproveitasse o feliz momento para apreciar um menino forte, também abandonado.

Frente ao garotão, um mulatinho cheio de vida, admiraram sua robustez. Aproveitamos o momento para a troca de ideias sobre o movimento das crianças abandonadas e outros assuntos.

Para desfazer a impressão do nosso General, fizemos cócegas debaixo dos braços do menino, como já tínhamos feito anteriormente, mas o garotão não deu bola … desarmando-nos. Já um tanto aflitos, comecei a dialogar com a criança, em pensamento, dizendo-lhe mentalmente:

“Seu safadinho! Estás me traindo?”

Foi então que uma réstia de luz veio-nos ao cérebro, inspiração de algum anjo bom. Começamos afazer-lhe cócegas nas plantas dos pés. Nesse momento, o garotão abriu-se num sorriso franco e amistoso, dando gargalhadas!

Olhamos para o General e ele, desconcertado, compreendeu a motivação. Estava desfeita a trama preparada pela médica.

Por aqueles dias apareceu na Instituição uma senhora de seus 40 anos, cor preta retinta, cujo semblante demonstrava ser uma mulher à altura de assumir qualquer responsabilidade.  Fora informada, por pessoa amiga, da existência da criança. Mandei-a subir ao Berçário improvisado, para ver o garotinho. Momentos depois descia entusiasmada, dizendo que desejava registrá-lo como filho.

Perguntamos-lhe seu nome, idade, meio de vida, bem assim do marido. Informou que não eram casados, mas viviam juntos havia 14 anos. Ele era motorista e trabalhava na praça em carro pr6prio, ela tomava conta do lar. Moravam em casa própria. Informamos que iríamos fazer sindicância em sua residência, para ultimar o assunto.

Quando em viagem para nossa missão, começamos a pensar no fato de que não eram casados. Mas raciocinamos: que 14 anos de convivência juntos era um testemunho valioso para comprovar que havia harmonia no lar. Tudo Bem!

Antes de batermos à porta, conversamos com algumas vizinhas, pedindo informações. E claro que não dissemos qual o intuito de nossa sindicância. Dissemos simplesmente que representávamos uma casa comercial e, como garantia de venda de alguns móveis a prestação, necessitávamos tomar conhecimento da real situação do casal em questão.

Fomos informados por uma das vizinhas de que – dois tinham saído. Que o vizinho era um homem trabalhador e honesto e a vizinha fazia todo o serviço de casa. Que os dois viviam em comum havia muito tempo e mostravam ser um casal feliz. Também esclareceu que os dois eram proprietários da casa onde habitavam e que eram pessoas honestas.

As informações colhidas deram-nos a certeza de que poderíamos confiar a criança ao citado casal. Fomos para casa e aguardamos.

Uma semana depois compareceu à Maternidade a candidata, já agora acompanhada do companheiro. Era um português portador de grossos bigodes, aparentando cerca de 50 anos de idade, peito estufado e ombros largos, o que nos levou a pensar: -“Tal pai, tal filho!” Rosto um tanto carrancudo, dava a ideia de ser homem de poucos amigos … mas demonstrava bondade no semblante e nobreza de sentimento.

Perguntou-nos, desde logo, por que não tínhamos feito a sindicância. Informamos que desejávamos que ele observasse a criança, antes de outras formalidades. ‘Nada lhe falamos sobre a nossa visita.

Ficou entusiasmado com a robustez do garoto e, desde logo, apoiou o desejo da companheira.

Para darmos uma saída honrosa ao caso da sindicância, garantimos-lhe que não mais iríamos à sua casa, pois sua fisionomia demonstrava ser um daqueles lusitanos para quem um fio do seu bigode valia por um documento!

Nesse momento deu gostosa gargalhada, sentindo-se muito feliz.

Tivemos a impressão de que aquela criança deveria ter sido seu filho em época recuada.

Entregamos-lhe o ofício para eles levarem ao Juiz, o qual deveria dar a última palavra e oficializar a entrega do garotinho aos dois.

No mesmo dia trouxeram outro ofício do juiz de Menores, mandando que lhe entregássemos a criança. O garoto que supunham “tarado” tinha encontrado, finalmente, o seu paizinho e a sua mãezinha querida!

Louvado seja Deus!


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 

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