Mário de Almeida

avriobrancoanos

                               Reprodução Web


 


O industrial Mário de Almeida era Diretor-Presidente de grande companhia de navegação. Fomos procurá-lo em seu escritório na Av. Rio Branco nº 26, munidos de uma carta de recomendação de amigo comum.

Havia um funcionário à porta de entrada, com ordem de resolver os casos mais simples.

Como se tratasse de uma simples carta de recomendação solicitando auxílio para a construção de uma Maternidade, o citado funcionário, depois de falar com seu chefe, aconselhou-nos a deixar com ele a missiva e voltar quando o Hospital estivesse em pleno funcionamento.

Na Campanha Financeira do ano seguinte, o mesmo resultado. A resposta foi idêntica No terceiro ano, 1946, por acaso ou por obra de Deus, o tal funcionário não se achava no seu posto, o que facilitou a nossa entrada. O escritório era grande e havia vários funcionários trabalhando.

Perguntamos a um deles pelo Dr. Mário, o qual nos indicou um senhor que estava sentado, dialogando com outra pessoa. A não ser a conversa entre os dois, ninguém mais falava. O silêncio era absoluto.

Ficamos aguardando, plantados no meio do salão.

Terminada a conversa, o visitante retirou-se.

Foi quando o Dr. Mário indicou-nos uma cadeira, convidando-nos a sentar. Inclinando-se um pouco para frente indagou: “O que deseja?”

Calmamente, tiramos a carta de recomendação costumeira da pasta e entregamo-la.

Após a leitura, fomos admoestados, muito delicadamente, nestes termos:

“Não lhe tenho mandado dizer, das outras vezes, para procurar-nos somente quando o Hospital estiver em funcionamento?”

A essa altura algo cresceu em nosso íntimo e respondemos no mesmo tom:

“O senhor pensa que um Hospital é como um Abrigo, que para iniciar sua missão basta alugar uma casa e colocar dentro dela meia dúzia de crianças? Uma Maternidade requer, pelo menos, uma sala de operações, salas de parto e curativos, instrumental e equipamento em geral.” E acrescentamos: “Se os corações bem intencionados não nos ajudarem a construir o edifício e a comprar o respectivo equipamento, como poderemos pô-lo em funcionamento?”

A fisionomia do homem mudou! Começaram a surgir as perguntas: “Já têm Diretor Técnico?”

“Temos” – foi a resposta. “Quem é?”

“O Dr. Clóvis Corrêa da Costa”.

“Quem é o Engenheiro? Quantos Diretores tem a Casa? Em que altura estão as obras?” E por aí em diante.

Por fim indagou se poderíamos reunir a Diretoria, o futuro Diretor Médico, o Engenheiro e o Mestre-de-obras para uma entrevista.

“Perfeitamente”, respondemos.

Sugeriu, então, que o pessoal estivesse no Hospital em construção no domingo seguinte, às nove horas da manhã. O encontro comigo seria na porta do edifício onde tinha seu escritório. Contudo, recomendou que lhe telefonássemos na véspera, pois sendo um homem muito ocupado, não tinha certeza de estar livre nesse dia. E realmente não pôde ir, marcando o encontro para o domingo seguinte.

No dia aprazado, às oito e meia lá estava ele, portando um chapéu de chuva, embora o tempo estivesse maravilhoso.

“Tem carro?” foi logo perguntando. Estranhamos não ter ele vindo de carro, pois julgávamos que, sendo um homem tão importante, deveria possuir carro “e chofer.

Ante essa pergunta, chamamos um táxi. Chegando à construção, lá estava toda a turma, sentada em torno de grande mesa. O Dr. Mário cumprimentou a todos com um aceno de mão, indagando pelo Engenheiro e pelo futuro Diretor Médico, os quais se apresentaram.

A seguir subiram todos para ver as obras, começando pelo 3º pavimento.

Observou quarto por quarto, bem assim as enfermarias, dando algumas sugestões que foram acatadas com agrado. Por fim, voltamos ao pavimento térreo, onde nos esperava um cafezinho.

Terminada a visita, despediu-se de todos, também com um aceno de mão, e pediu que o acompanhássemos.

Tomamos o mesmo táxi que nos ficara esperando. Durante a viagem, indagamos se o Dr. Mário era médico.

“Não”, informou-nos, “embora muita gente pense que sim, talvez pelo fato de conviver com muitos médicos:”

Nessa viagem determinou que fosse elaborada uma lista para percorrermos algumas firmas que ele iria indicar, onde, pensava ele, iríamos conseguir uma boa importância.

Mais tarde soubemos ser ele acionista da Maternidade “Arnaldo de Morais”.

Dentro de dias foi-lhe entregue a lista com as firmas por ele indicadas.

Mandou então que procurássemos o Diretor-Gerente do Banco do Comércio, que assinou cinqüenta contos de réis. O Gerente de um outro Banco assinou treze contos de réis e ele próprio, o Dr. Mário, nos doou cinqüenta contos de réis. Quantias consideráveis, naquela época.

Foi uma grande contribuição e nos ajudou a terminar as obras.

Enquanto estivermos no chão do mundo continuaremos a enviar-lhe nossos pensamentos de paz, como gratidão por seu gesto de Amor, auxiliando decisivamente a Instituição que ainda não estava em funcionamento.

O episódio acima indica que jamais devemos desanimar, quando estamos desempenhando o trabalho santo de auxilio aos semelhantes.

A paciência, a perseverança e a insistência são fatores decisivos que nos auxiliarão a contornar as dificuldades.

O Senhor nos ilumine.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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