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Maldito preconceito
7 de novembro de 2013 Casa da Mãe Pobre – 50 anos de Amor

 


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                         Reprodução Web

A pobre criatura agradeceu o alvitre e concordou, mas, no dia seguinte, teve uma nova idéia. Telefonou para um primo, que advogava no Rio e em Brasília, o qual compareceu logo.

Inteirado do assunto, enviou telegrama para o tio, isto é, o avô da criança, solicitando  sua presença.

Este último não se fez esperar e no dia seguinte chegava à “Casa da Mãe Pobre”. Homem idoso e cansado, abraçou a filha com carinho. Ela soluçava e ele também. E neste transe foram levados para o quarto que a moça ocupava e deixados a sós.

Somente à noite fomos visitá-los, pois tínhamos sido informados de que o velhinho queria levar a filha, mas não a neta, o que representava sério impasse.

Após os cumprimentos e troca de idéias, esforçamo-nos para fazê-lo compreender da necessidade de levar mãe e filha. Mas o homem não concordava. Em dado momento, desfechamos-lhe o último argumento, perguntando-lhe:

“Quantos anos o senhor tem?”

Ao sermos informados da idade, ponderamos:

“Estamos chegando, os dois, ao final de nossas existências. Qual será a sua resposta, após a morte, quando as autoridades divinas lhe perguntarem sobre os motivos que o levaram a abandonar a neta?”

Esse argumento abalou-o. Seus dedos tamborilavam na cadeira de balanço, onde estava sentado, demonstrando nervosismo. Foi quando, abatido e vencido, prometeu levar ambas, no dia seguinte.

Aquela afirmativa deixou-nos alegres e sensibilizados.

Mas, no dia aprazado, eis que ele chega ao Hospital, de manhã, acompanhado de um Deputado Federal. Tratava-se de um sobrinho que viera propositadamente de Brasília para ajudar o velhinho a resolver o assunto. Sua intervenção, todavia, não visava a ajudar a infeliz moça, mas sim seu genitor, o velho sertanejo, como os fatos vão demonstrar.

Pediram a presença da mãe da criança e concertaram um plano diabólico, se assim nos podemos expressar. Começaram por reunir todas as coisas da filha do fazendeiro e da criança, inclusive suas roupinhas, para darem a impressão de que iriam levar o caso a sério. Encenaram a coisa com absoluta perfeição, dando a entender que realmente iam cumprir a promessa que naquele momento fizeram.

Perdoem-nos os leitores, por entrarmos em detalhes, mas são necessários para verificarmos a extensão da maldade humana, movida, neste caso por terrível preconceito.

Quando a genitora chegou onde eles se encontraram, acompanhada de Dona Mathilde, a Administradora da Casa, começaram os dois, a afirmar que iam levá-la. Sobressaltada, a criatura indagou:

“Minha filha segue comigo?”

“Não – respondeu o Deputado – como a prima deve compreender, antes de nos transportarmos para a Fazenda temos de passar pela residência de seu pai, na cidade. E, se a criança nos acompanhar, todo mundo vai tomar conhecimento de que é sua filha. E o escândalo rebentará… Para evitar os ditos e maledicências, a criança continuará com esta boa gente por mais ou menos um mês. Levaremos você conosco para o hotel e amanhã tomaremos o avião para seguir viagem.”

A moça caiu em prantos, afirmando que não seguiria sem a filhinha. Para acalmá-la, o Deputado afirmou categoricamente:

“Uma vez chegando à cidade onde residem. tomaremos o rumo da Fazenda, onde você vai ficar com sua filha. Passados alguns dias, voltaremos ao Rio a fim de apanharmos a criança e levá-la para sua companhia.’ ,

Avisada por secreto instinto, a mãezinha afirmava não acreditar e continuava debulhando-se em lágrimas.

O velhinho, comovido, mas intransigente, saiu-se com esta:

“Nunca, em tempo algum, os meus filhos duvidaram da minha palavra.”

As afirmativas do ancião, quase chorando, comoveram-nos e Dona Mathilde, vendo que o impasse se prolongava, pegou a criança que se achava no colo da mãe e disse-lhe:

“Minha filha, não duvides das afirmativas do teu pai. Segue com eles e deixa a criança conosco. Dentro de pouco tempo virão buscá-la e a levarão para tua companhia”.

Nesse momento a moça resolvera acompanhar o pai e o primo, rumo ao hotel, embora com as lágrimas a rolarem-lhe pelo rosto.

Foi um quadro doloroso que ficou em nossa retina.

Passaram os dias e os meses, e nada de virem buscar a criança. Já estando ela crescidinha, Dona Mathilde pediu a uma sobrinha para agasalhar a criança até o caso ficar resolvido. Ela e o marido oficial do Corpo de Bombeiros – pais de dois filhos já crescidinhos, levaram a criança para o seu lar. Foi um ato de desprendimento, pois não exigiram nenhuma garantia que lhes assegurasse a posse da criança. Uma atitude verdadeiramente cristã.

Mais de um ano após esses acontecimentos é que a mãe da criança conseguiu escrever para Dona Mathilde, narrando algumas de suas desditas. Mas reconhecia-se, na carta, que fora escrita debaixo dos olhos de alguém. Transpirava muito pouco do que ela queria dizer.

De longe em longe a desditosa mãe enviava algumas roupinhas para a filhinha querida. Conjuntamente vinham beijos e abraços para a menina e para Dona Mathilde, que ela considerava como sendo também sua mãe.

Anos mais tarde, quando a menina já tinha sete anos, a mãe desta conseguiu que a deixassem vir ao Rio. Foi quando ela se abriu e contou o restante de seu drama. Informou que certa vez, um outro dos seus irmãos, com quem estava vivendo, lhe deu tremenda surra em plena rua, chamando-a de vagamunda, etc. etc. sem motivo, somente porque fora fazer compras sem lhe comunicar. Daquela boca saíram insultos e impropérios, entremeados de palavras de baixo calão.

O pai legítimo da criança, depois de anos passados, teve conhecimento do drama que tinha causado e fez constar que desejava ficar com a menina.

Apavorada, a mãe da criança voltou ao Rio de Janeiro e pediu encarecidamente aos pais adotivos da menina que a adotassem como filha, para esta não cair nas mãos daquele “desconhecido”. E assim foi feito. Foram todos ao Juiz de Menores que, ciente de todo aquele drama, formalizou o pedido da genitora da menina. Dessa forma ficou ela entregue definitivamente ao bondoso casal, embora a mãe não perdesse o pátrio poder e continuasse a visitá-la de longe em longe.

Na época em que ocorreu o ato acima citado, a mãe ficou no Rio por vários meses. Os pais adotivos puseram a criança à sua disposição e deram-lhe a conhecer quem era sua verdadeira mãe.

A garotinha tinha acendrado amor aos pais adotivos, principalmente ao pai. As raízes desse amor tão puro deveriam ter sua gênese num passado longínquos.

Em meados de 1973, o velho genitor escreveu à filha, pedindo-lhe que voltasse ao torrão natal. Para tal fim, pôs à sua disposição pequena casa que possuía na Capital do Estado, onde ela foi residir em companhia de outro irmão. Foi ajudar a criar os sobrinhos.

Quando escrevemos esta crônica, verdadeira em seus mínimos detalhes, em 1982, já a garota virou mocinha, pois deve estar beirando os 16 anos.

CONCLUSÃO

Louvado seja Deus, que fez se encaminhassem as coisas de maneira que a pobre mãe não perdesse contato com a filha estremecida, que cresce entre dois irmãozinhos que muito a estimam e um casal que a adora.

Depois de tantos sofrimentos, principalmente morais, aquela vítima dos preconceitos vai assistir à formatura da filha – seu retrato em pessoa, pois muito se parece com a genitora. E a paz voltou à mansão dos avós.

Esta crônica foi escrita com o único fim de levar outras pessoas a evitar tais casos. É um aviso, ou como queiram, uma advertência aos corações mais endurecidos e eivados de preconceitos. Que o drama que infelicitou essa criatura lhes sirva de dique aos seus pensamentos menos dignos. Isto porque a trama que envolveu a infeliz moça, obrigando-a a recalcar os seus sagrados anseios de mãe, representa um crime de lesa-consciência.

Se ela tivesse um espírito fraco poderia ter sido levada ao suicídio: E quem arcaria com a responsabilidade?

Quantos pais existem por aí afora que jogam as filhas na rua da amargura, quando estas lhes fazem sentir que estão grávidas! Justamente quando mais necessitam do auxílio e conforto de seus genitores.

Muitos casos destes se nos têm deparado na Maternidade “Casa da Mãe Pobre”. Todas essas criaturas têm encontrado guarida nesta Instituição e, graças a Deus, todos os seus problemas vão sendo resolvidos. Por esses crimes morais, todos os faltosos terão de prestar contas ante os Tribunais Divinos.

Deus se compadeça de todos eles e os envolva com seus eflúvios amorosos, principalmente aquela martirizada mãezinha, espoliada dos seus direitos divinos, quais sejam o de manter a seu lado o ser amado de sua alma – sua filhinha querida.

O Senhor abençoe nossos bons propósitos e anseios de servir, levando em nossa companhia nossos irmãos em humanidade.

Assim seja.



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Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 

 



 

 

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