Lar de Jesus

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Nas visitas que fazíamos mensalmente ao Hospital São Sebastião, no RJ., quando íamos distribuir as importâncias dos pensionistas auxiliados pela ” Fundação Marietta Gaio “, descobrimos que um dos favorecidos recebia constantes visitas de uma senhora. De acordo com os seus princípios, a Fundação auxiliava somente aos enfermos que ali viviam internados sem visitas.

Interpelado sobre o assunto, o infortunado enfermo informou que a pessoa que o visitava era sua esposa, que vivia com quatro filhos menores que a impediam de trabalhar. Entramos em detalhes e tomamos conhecimento de todo o drama.

Condoídos com a situação do casal, pedimos autorização para visitar sua família, no que fomos atendidos.

A desditosa criatura vivia com os filhos na rua Vinte e Quatro de Maio, esquina da Rua São João, num barraco de, no máximo, nove metros quadrados, chão de terra, coberto de algumas folhas de zinco, em terreno baldio.

Quando chegamos ao local deparamos com um quadro desolador. Fomos recebidos pela pobre criatura, explicando-lhe o motivo de nossa visita. Pressurosa, pediu-nos que entrássemos. Passando em revista o interior do barraco, notamos que duas crianças dormiam numa cama velha de casal, a única existente .

Mais uma pequena mesa de pinho velha, duas cadeiras e um guarda-comida, também velho, era todo o mobiliário da casa. A pequena cozinha e banheiro, cobertos de zinco, ficavam do lado de fora. Brincando no quintal, mais duas crianças, talvez de seis e oito anos.

“São seus filhos?” Indagamos, ao que ela, com tristeza, respondeu:

“São a fortuna que me resta … “

“E o seu marido, não tem aposentadoria?” “Como o senhor já verificou, meu marido se acha internado no Hospital São Sebastião. Sua aposentadoria é uma migalha face ao que as crianças necessitam. (Se na atualidade o Instituto de Aposentadoria e Pensões paga pouco a quem ganha o salário mínimo, na época em questão o que pagava aos associados, quer fosse aposentadoria ou auxílio-doença, era um quase nada).

“Diga-me uma coisa – tornamos a indagar – que idade têm as crianças?”

“A mais nova seis meses e a mais velha sete anos”, respondeu.

Sucederam-se perguntas e respostas. Ficamos sabendo que o marido tinha conseguido um pequeno auxílio-doença, no então IAPI. Com essa minguada importância e o auxílio de alguns vizinhos – inclusive de seu antigo patrão, dono de uma padaria existente nas proximidades e que lhe fornecia o pão a título de auxílio – ia vivendo precariamente Por vezes passavam necessidades duras.

Saímos do barraco com lágrimas nos olhos e o coração em frangalhos. Fizemos vários pedidos de auxílio, inclusive à “Fundação Marietta Gaio”, a qual determinou que lhe fosse concedida uma pequena pensão mensal.

Após alguns meses, faleceu o pobre enfermo, deixando a viúva e os quatro órfãos ao desamparo.

Veio o Natal, quando procuramos o bondoso Álvaro Brandão da Rocha, Diretor-Geral da “Vanguarda”, jornal onde fizemos dramático apelo em favor daquelas crianças. Engendramos uma história interessante, com o nome e a idade das crianças, três meninas e um menino.

O conto-apelo foi publicado no dia 20 de dezembro de 1952, se não nos falha a memória. No dia seguinte, Dona Marília Barbosa, digna esposa do Leopoldo Machado, saudoso tribuno, leu o conto na tribuna do Centro Espírita “Fé, Esperança e Caridade”, em Nova Iguaçu. O artigo arrancou lágrimas de alguns presentes, inclusive dela mesmo, segundo expressões do próprio Leopoldo em uma crônica que ele leu na Hora Espiritualista João Pinto de Souza, na Rádio Copacabana, de saudosa memória, atualmente Rádio Rio de Janeiro.

Após a leitura do artigo, Dona Marília fez uma coleta entre os presentes, os quais concorreram com seu auxílio, engrossando as dávidas em socorro daquele grupinho infeliz. No dia seguinte a bondosa e sempre lembrada Dona Marília, acompanhada de outra irmã daquele Grupo maravilhoso, bateram à porta do barraco da pobre viúva, repletas de embrulhos de víveres, brinquedos e roupinhas. Foi uma festa para as crianças e uma esperança para aquela pobre mãe.

Tudo terminado, Dona Marília e a companheira saíram para o terreno, pois no barraco fazia calor sufocante e ali, no lado de fora, fez sentida prece de agradecimento a Deus. Depois de trocar mais algumas palavras com a viúva, voltou-se para a companheira, falando em alto e bom som:

“Vamos construir em Nova Iguaçu uma casa para recolher criancinhas desamparadas como estas.” E sentenciou: “O nome da Instituição vai ser Lar de Jesus .”

Três anos depois, em uma tarde ensolarada, chegávamos em Nova Iguaçu, eu, a esposa e as filhas, levando uma almofada feita pela minha companheira.

Dona Marília e seu digno esposo tinham improvisado uma festa no terreno onde estava em construção a futura sede do Lar de Jesus, angariando numerário para ajudar as obras. A almofada foi leiloada, contribuindo para engrossar a féria daquele dia. O mais interessante do caso é que encontramos no local um velho amigo, José Antônio Marques, já então casado e com duas filhas. Após forte abraço, regredimos ao passado lembrando-nos dos velhos tempos …

Tínhamos sido amigos inseparáveis, trabalhando juntos no comércio.

Aos domingos freqüentávamos a missa, na Igreja de São Francisco Xavier, onde pontifica o velho e respeitado sacerdote, Cônego Mac Dowell. Havia moças em profusão, às quais fazíamos alguns acenos … Depois saíamos os dois, combinando a qual baile iríamos à noite.

Coisas da mocidade, embora debaixo de todo respeito, como era natural naqueles bons tempos. Pedimos perdão por estas digressões, lembrando o destino de duas almas fadadas ao trabalho redentor.

Passados tantos anos, nos reencontrávamos numa festividade beneficente, já agora na qualidade de espíritas militantes.

Com a graça de Deus, nossos destinos estavam unidos para o desempenho de uma mesma tarefa: A expansão do Espiritismo Cristão nas terras de Santa Cruz.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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