Lar Anália Franco

analia franco

                                Reprodução Web


 


Não confundir com o Lar Anália Franco de São Manuel, Estado de S. Paulo.

Este último foi fundado pela grande espírita Anália Franco, embora seja apresentado como tendo sido fundado por uma outra senhora, que no tempo de sua fundação era auxiliar dessa grande alma – Anália Franco, fundadora de várias Casas de Caridade naquele grande Estado, bem como de inúmeras Escolas.

O LAR ANÁLIA FRANCO a que nos referimos tem uma sede na cidade do Rio de Janeiro e nasceu na antiga Rua Figueira, atual Avenida Marechal Rondon. Foi seu fundador o marido de dona Anália, pouco tempo depois do falecimento dessa grande educadora e trabalhadora de Jesus.

Fomos secretário da Diretoria dessa Instituição durante oito longos anos, cremos que a começar em 1929. Retiramo-nos quando foi inaugurada a Maternidade “Casa da Mãe Pobre” a qual requisitava, nessa época, toda a nossa atenção.

Anos após, o Dr. José Carvalho Neto, seu Presidente, ficou enfermo e pediu-nos para tomar conta do Asilo Anália Franco, por motivos de seu estado de saúde. Como faltassem 19 meses para terminar o tempo de seu mandato, pedimos-lhe para reunir o Conselho Deliberativo a fim de dar cunho oficial à nossa investidura, o que foi feito.

Havia muito tempo vinha faltando água nessa grande Instituição.

Sua sede fica numa altitude regular, na altura da antiga Estação do Rocha, RJ.

Suas 65 crianças internas sofriam a falta desse precioso líquido. Nosso primeiro ato foi melhorar o Asilo naquilo que fosse possível, tendo como prioridade o problema da água.

Mandamos quatro cartas para quatro jornais, pedindo-lhes socorro, com documentação que comprovava nosso apelo. Somente o Correio da Manhã nos atendeu. Uma bela manhã, subiam a Rua Figueira um fotógrafo e um repórter, quando notaram que quatro mocinhas portando vasilhames aguardavam a vez para enche-los do precioso líquido na vizinhança.

Desconfiando que fossem do próprio Asilo que pedia socorro, dirigiram-se ao grupo, que logo os pôs a par da terrível situação.

A seguir, subiram a rampa um pouco íngreme e foram visitar o Asilo e fazer a reportagem, motivo de sua presença. Dois dias após surgia a reclamação no citado jornal, com a fotografia das crianças apanhando água com grandes latas.

Uns vinte dias mais tarde recebemos carta do Diretor do Departamento de Águas informando que dentro de dias mandaria substituir as tubulações de água da rua. Realmente, esse bom homem cumpriu a promessa. Antes de um mês, os operários começaram a substituir as tubulações da água de 2 para 6 polegadas. E assim terminou, com a graça de Deus, a terrível situação da falta d’água.

Todavia, ainda acontece que, quando a adutora principal é afetada por qualquer motivo, o Asilo sofre as consequências.

Outra medida que levamos a cabo foi a mudança do nome, de Asilo de Órfãs Anália Franco para Lar Anália Franco, por ser mais humano.

Apesar de ter melhorado a questão da água, continuamos a procurar terreno onde esse precioso líquido não viesse a faltar. Depois de muito procurar, deparou-se nos vasto terreno em Lins de Vasconcelos, na Rua Heráclito Graça, antiga Rua das Mangueiras, terreno de propriedade da Caixa de Mobilização Bancária do Banco do Brasil.  Na referida rua passa uma tubulação de 50 centímetros de diâmetro de água potável. Era neste terreno que pretendíamos construir a nova sede do Lar.  Naquele local nunca faltaria água.

Levamos cerca de vinte meses a pedir aos dirigentes do referido Banco se nos podiam vender o citado terreno. Após esse longo tempo apresentamos nosso pedido de demissão da Presidência do Lar, devido ao nosso precário estado de saúde e também aos inúmeros afazeres que nos prendiam à “Casa da Mãe Pobre” .

UM SONHO SINGULAR 

Justamente quando éramos Presidente do Lar em questão, tivemos um sonho com Jânio Quadros e sua esposa. Estávamos em São Paulo – assim se nos apresentou o sonho e o estranho caso – quando alguém nos levou a uma pequenina sala onde se encontrava Jânio Quadros a escrever numa secretária antiga, daquelas que eram recobertas com uma esteira de madeira. Nem deu conta da nossa presença, ou por outra, “não deu bola”. Olhamos para o outro lado e deparou se nos uma sala à moda antiga, da qual saía uma escada para o andar superior.

Descendo a escada, vinha Dona Eloá, esposa do ex-presidente do Brasil. Instintivamente nos dirigimos à escada para cumprimentá-la. Quando Dona Eloá chegou em baixo, já nos encontrávamos junto ao primeiro degrau. Não sabemos como, nem porquê, naquele momento verificamos que o rosto daquela senhora dirigia-se à nossa testa. Nosso primeiro impulso foi recuar, mas logo nos veio à mente que beijos na testa eram ósculos de mãe. Muito naturalmente baixamos a testa, com o máximo respeito, onde ela nos beijou. Nisto o sonho terminou.

Poucos meses depois eis que Jânio Quadros empreende sua Campanha para Presidente da República, saindo vencedor.

Na época, ainda éramos o Presidente do Lar Analia Franco. Logo que Jânio assumiu a Presidência lembramos do estranho sonho. Aproveitamos a oportunidade e escrevemos-lhe um ofício, com todos os detalhes, pedindo sua interferência junto ao Banco do Brasil, para que o Lar Anália Franco tivesse preferência na compra do citado terreno de Lins de Vasconcelos, ou que nos fosse doado.

O tempo correu e um belo dia, ao chegar em casa, tivemos a satisfação de escutar a esposa dizer que tinham telefonado para nossa casa por duas vezes, justamente da Caixa de Mobilização Bancária do Banco do Brasil, querendo falar comigo.  Logo nos veio à mente o caso do referido terreno. E no dia seguinte fomos à citada Caixa Bancária, a qual ficava no grande edifício que está localizado na Av. Rio Branco, esquina da Av. Presidente Vargas.

Dirigimo-nos ao 14º pavimento, onde funcionava o citado departamento. O funcionário que costumava nos atender recebeu-nos com todo o carinho. E logo nos levou à grande sala toda atapetada, onde se encontrava o gerente, Dr. Figueiredo, que, todo risonho, mandou que nos sentássemos. A seguir, perguntou-nos se o Lar Anália Franco ainda estava interessado na aquisição do terreno de Lins de Vasconcelos. Dissemos que não éramos mais o Presidente da Instituição, mas que tínhamos a certeza de que seus dirigentes desejavam comprá-lo.

O terreno tinha uma parte plana de 32.000 metros quadrados. a restante, ou seja, 33.000, metros quadrados subia morro acima, onde existiam oito pequenas casas, construídas debaixo da orientação de Dom Helder Câmara.

A propósito, lembramos que tínhamos escrito um ofício ao Sr. Presidente da República, pedindo sua interferência em favor do Lar Anália Franco. Em resposta, o Dr. Figueiredo ordenou a um funcionário que lhe trouxesse o processo nº  tal. Com ele nas mãos, mostrou-nos a última folha e lá estava a assinatura de Jânio Quadros, em lápis grosso, vermelho. Perguntamos o que o Dr. Figueiredo iria responder; informou-nos que já tinha respondido ao Presidente: 1º  o Banco do Brasil não nos podia dar preferência, porque não éramos inquilinos do citado imóvel; 2º  o presidente somente poderia interferir no assunto através de Mensagem dirigida ao Congresso, solicitando fosse doado ao Lar Anália Franco o terreno em questão. Mas, pessoalmente, nos aconselhava a comprá-lo porque, quando a Mensagem chegasse ao Congresso, alguns Deputados poriam obstáculos, para que o terreno fosse dividido, tendo em vista o seu tamanho, que era de 65.000 metros quadrados. Adiantou que a própria Igreja Católica estava interessada numa parte do terreno.

Levamos o caso ao conhecimento do Presidente do Lar, que convocou uma reunião da Diretoria para tratar do assunto. Quando nos deram a palavra, falamos que havia uma proposta de um judeu, arquivada no banco, na qual ele ,oferecia Cr$ 8.050.000,00 (oito milhões e cinqüenta mil cruzeiros). Informamos, também, que o terreno valia mais do dobro e lembramos que a antiga Diretoria tinha deixado em Caixa mais de um milhão de cruzeiros.

Nossa opinião era fazer-se uma proposta no valor de dez milhões de cruzeiros. O Banco aceitava 20% de entrada e o restante poderia ser pago em prestações mensais pelo prazo de cinco anos, com juros de 5% ao ano. (Naquela época).

Faríamos uma tômbola inicialmente com um carro de pouco uso e entraríamos a pedir a cooperação a quem pudesse auxiliar. O que faltasse para a primeira entrada, nós o arranjaríamos com pessoa conhecida, sem juros de espécie alguma. Tínhamos a receber do Governo da União Cr$ 1.200.000,00 da subvenção anual, importância essa que dava para cobrir a primeira prestação.

Submetida à votação, nossa proposta foi derrotada por um voto. Foi como se nos dessem uma facada no coração. Depois de tanto trabalho elaborado, o projeto caiu fragorosamente.

Quanto ao Dr. Jânio Quadros, chegou a fazer a Mensagem para enviar ao Congresso. Assim nos informou o Secretário particular do Presidente;  três dias após, Jânio renunciou à Presidência da República.

Apesar da derrocada à vista, não nos demos por vencido.

Dias após tomamos um avião e fomos a Brasília.

A primeira coisa que fizemos foi procurar o processo em questão, já agora reduzido à Mensagem de Jânio Quadros. Para isso, fomos ao Palácio dos Despachos, mas ninguém sabia de tal Mensagem.

Dirigimo-nos então à sede da Legião Brasileira de Assistência, na esperança de falarmos com Dona Maria Teresa, esposa de João Goulart, novo Presidente da República. Em dois dias seguidos não a encontramos. Foi quando explicamos a um rapazinho que atendia ao público o nosso doloroso caso.

Condoído da nossa situação, explicou-nos que Dona Maria Teresa não estava comparecendo à Legião. Sugeriu-nos que a procurássemos na Granja do Torto, sua atual residência.

Informou-nos mais, que no portal da Mansão havia sempre dois policiais. Que nos dirigíssemos a um deles, declarando que Dona Maria Teresa tínhamos marcado entrevista dias antes, às 9 horas. E que aguardássemos o resultado. Era uma tentativa. Para dar início a essa sugestão falou para a residência da Primeira Dama e pediu para determinada pessoa informá-la do nosso pedido.

No dia seguinte, um nosso amigo residente em Brasília levou-nos em seu carro à Granja, retornando desde logo para o trabalho.

Os dois policiais lá estavam. Um deles escutou nossa pretensão de falar com a Primeira Dama e mandou o outro perguntar-lhe se poderíamos ser recebidos. .

Daí a alguns minutos, ei-lo de volta. Abriu o portão e mandou-nos entrar indicando-nos o caminho, pois o prédio achava-se a uns cinqüenta metros de distância.

Quando entramos no prédio, achamo-nos num salão grande, atapetado, mas muito simples. Um homem estava sugando o pó do tapete com um aspirador.

No centro do salão encontrava-se dona Maria Teresa, sentada numa cadeira. À sua frente, a uns dois metros, havia outra cadeira mais simples. A Dama cumprimentou-nos e mandou-nos sentar.

Em nossa missão, historiamos os motivos de nossa presença, em favor do Lar Anália Franco, do Rio de Janeiro. Ela escutava-nos. E nós continuamos a falar e a falar, tecendo com motivos novos as necessidades do Lar das Crianças. Como ela continuasse calada, em certo momento subiu-nos algo à cabeça. Levantamos a voz e, inesperadamente, acrescentamos:

“Dona Maria Teresa, a senhora é a Presidente da Legião Brasileira de Assistência e, portanto, é o Anjo Tutelar de todas as criaturas carentes do Brasil. Pedimos o seu auxílio.”

Só então ela saiu do torpor em que se encontrava. Respondeu-nos desde logo que iria providenciar. Que procurássemos, naquele mesmo dia, fulano de tal, no Palácio dos Despachos, encarregando-o de procurar o número do Processo que continha a mensagem de Jânio Quadros. Se houvesse necessidade de algo, que nós lhe telefonássemos.

Seguimos as suas instruções e, no dia seguinte, apareceu o Processo. Telefonamos para a Granja, mas Dona Maria Teresa não estava. Pedimos então a pessoa responsável que lhe dissesse da nossa gratidão e que esperávamos que ela nos ajudasse naquela emergência toda especial, pois naquele mesmo dia embarcaríamos para o Rio de Janeiro.

Apesar de todas essas canseiras, nossas esperanças esfumaram-se. O processo em questão morreu ali mesmo.

Nada mais poderíamos fazer. Nosso sonho estava desfeito.


 


 

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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 

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