Falsa gravidez

cegonha
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Muito vivaz e alegre, tez clara e cabelo louro, a senhora procurou-nos acompanhada de uma vizinha nossa conhecida. Após os cumprimentos iniciou amistosa palestra, finda a qual declarou que sua visita tinha por fim fazer-nos especial solicitação.

Começou por dizer que vivia em perfeita harmonia com seu marido. Todavia, vez por outra mergulhava em profunda tristeza, devido ao fato de não poder conceber. E como o casal desejava uma filhinha, fez-nos veemente apelo no sentido de arranjar-lhe uma criança recém-nascida, para registrá-la como filha.

No decorrer da palestra, minha esposa tinha notado um detalhe que lhe chamou a atenção. O ventre da visitante se assemelhava ao de uma gestante. E a título de curiosidade, perguntou-lhe:

“A senhora está em estado de gestação, não?” Em resposta, a visitante soltou uma gostosa gargalhada e esclareceu:

“O que os senhores estão vendo é enchimento de panos para ludibriar meus vizinhos.”

Essa confissão causou hilaridade geral! A interessante criatura prosseguiu:

“Se descobrirem que arranjei uma criança por adoção, certamente vão contar-lhe quando ela crescer. Esse receio me obriga a usar este subterfúgio.”

Nesse momento perguntamos-lhe:

“Há pouco a senhora disse-nos que desejava uma menina, mas não esclareceu quanto a cor, se branca, mulatinha ou negra.”

“Oh!” respondeu a mulher – “naturalmente deve ser branca, loura e de olhos azuis. De acordo com o meu tipo.”

Medi-a de alto a baixo. Em seguida encarei minha esposa, que estava tão admirada quanto eu. Então fiz-lhe sentir ser quase impossível aparecer uma criança com todos aqueles requisitos, mas que lhe informaria se alguma parturiente rejeitasse a filhinha do tipo que ela desejava. A seguir perguntei-lhe:

“Quanto tempo a senhora precisa para nascer sua futura filha?”

Com a maior naturalidade respondeu:

“Deve ser para princípios de novembro.”

Quase levamos um susto! Estávamos em fins de maio e, portanto, só nos restavam cinco meses para que o milagre se concretizasse.

Três meses se passaram, até que ela novamente nos visitou. Nessa altura seu ventre tinha aumentado. Foi logo nos informando que espalhara pela vizinhança que o médico lhe tinha dito que a criança deveria nascer em princípios de novembro – de acordo com os planos que traçara. E que as vizinhas estavam esperando ansiosas …

Nessa altura achei por bem notificá-la de que nada havia de positivo na Maternidade, quanto aos seus planos e nossa opinião era que o seu plano iria fracassar.

Sua fisionomia não se alterou com a notícia que acabara de receber. Simplesmente me disse que tinha uma irmã morando no Rio e que no caso de fracasso, passaria duas semanas na residência dessa sua irmã e faria, depois, correr o boato que a criança tinha falecido.

É necessário informar aos leitores que o caso em questão se passou em Teres6polis, onde também tenho moradia.

Achei lógica a sua desculpa. E o tempo foi passado.

Em fins de outubro de 1977, a administradora da “Casa da Mãe Pobre”, instruída que fora pela minha esposa, telefonou-lhe informando-a que determinada moça tinha procurado a Instituição, pedindo asilo para sua filhinha recém-nascida. Motivos imperiosos impedIam-lhe de ficar com a criança e ela aceitasse que alguém a aceitasse como filha.

“De que cor é a criança?” perguntou minha mulher.

“É branca e seu cabelo é louro”, respondeu a funcionária.

“Coloca a mãe e a criança num dos quartos e trata-as com carinho. E espera nossas instruções. Amanhã cedo telefonarei.”

A criança havia nascido no Hospital Moncorvo Filho. Como não podia cuidar da menina, sua mãe quis deixá-la no Hospital, o que não lhe foi permitido, mas sentindo sua dificuldade e penalizada com sua situação, uma das enfermeiras aconselhou-a a procurar a “Casa da Mãe Pobre”.

Quando a noite cheguei à nossa residência, minha esposa informou-me da boa nova.

Ligamos imediatamente para Teres6polis, onde morava a parturiente, e pedimos a um amigo, Jorge Vaz, para avisá-la, informando-a de que a encomenda esperada havia chegado de São Paulo … Que viesse ao Rio no dia seguinte, logo de manhã.

O truque de que a encomenda vinha de São Paulo foi tomado para que ele não tomasse conhecimento do assunto.

Às oito horas da manhã do dia seguinte, estávamos a despachar o expediente, quando fui avisado de que três moças desejavam falar-me, mandei que aguardassem e continuei meu trabalho.

De repente entraram as três de roldão. Era a pretendente à criança que, embora com vinte e cinco anos, mais parecia uma garota de dezoito anos, devido à sua compleição física. Estava acompanhada de duas moças de sua família. Encaminhamo-las para uma sala reservada e mandamos que a futura mãe fosse ver a criança, no pavimento superior. Quando ela desceu estava chorando.

Declarou que a menina era linda, loura, de olhos azuis, tal como a desejava.

As três se abraçaram, começando a rir e pular, como crianças! Em seguida, a mãe deixou o quarto e foi levada pelas três moças para o lugar que ela desejava – local de trabalho, ficando a garotinha em companhia da nova mãezinha. Dali seguiram de carro para a Rodoviária, de volta a Teresópolis.

Chegando à estação, enquanto aguardavam a hora da saída do ônibus, surgiu inesperado susto. Uma das jovens deu o alarme, exclamando :

“Criatura você ainda está “grávida”!

Na euforia e na pressa a felizarda mãezinha havia se esquecido de tirar o enchimento do ventre. E as três moças puseram-se a rir! E agora? Uma das moças, rompendo o impasse, ordenou:

” Entrega-me a criança e vai ao banheiro.” E assim foi feito.

A diferença de datas entre o fim de outubro e princípio de novembro, época em que a gestante havia anunciado que haveria de dar à luz, era mínima, perfeitamente aceitável num parto normal. E assim, Deus nosso Pai Eterno, mais uma vez atendeu aos rogos de uma criatura de boa vontade, enviando-lhe, por vias indiretas, uma filhinha, tal qual ela deseja ara. E material para meditar. Foram de muita coincidência os vários lances que se passaram: as datas, o sexo, a cor da pele e até os olhos azuis! Todos os desejos daquela felizarda mulher se realizaram.

Temos, ainda, a ponderar o fato de a parturiente ter dado à luz em outro Hospital e, não desejando ficar com a filha, ter sido encaminhada à “Casa da Mãe Pobre”.

Neste caso, todo especial, a Providência Divina venceu todos os obstáculos.

Mais uma vez se confirma o adágio: Deus escreve direito por linhas tortas …

O Senhor nos ilumine.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães



 

 

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