Eurípedes Barsanulfo – parte III


Capítulo XXXV


Eurípedes Barsanulfo

Reprodução Web
Eurípedes Barsanulfo

De certo que não.
V. Excia permitiria que, na escola onde estão sendo educados seus filhos, se reunissem também doentes afetados de moléstias contagiosas e repelentes?
De certo que não.

Como, pois, V. Excia, não permitindo tais dislate para sua família própria, permiti-los para a grande família mineira de que V. Excia é também pai, devido ao elevado cargo que ocupa, de vigia e sentinela da nossa propriedade moral e material?

Sr. Presidente, V. Excia é responsável perante Deus pelo que passa na cidade de Sacramento, onde um doido que já quis espancar o pai, dirige uma Clínica e uma Farmácia que não paga direito ao Estado e dirige um Colégio, frequentando por mais de oitenta alunos de ambos os sexos!

Faça cessar essas anomalias; afaste, com sua mão protetora dos mineiros, dezenas de crianças que se destinam aos manicômios, nessa idade florida em que o amor desabrocha como uma flor.
Reside na cidade de Sacramento um deputado estadual, homem de bem, cidadão honesto e honrado pai de família. Interrogue esse representante do povo e nós estamos certos de que, católico como é, temerá a Deus e não enganará V. Excia. com relação aos fatos gravíssimos que ora denunciamos”.

Infeliz médico! Que indigência espiritual! Não lhe bastou descer tanto, moralmente, denunciando um homem, cuja vida era o próprio Evangelho. Era preciso ofendê-lo, chamando-o de “doido” e caluniá-lo afirmando que ‘Já quis espancar o pai” … E o Dr. João Teixeira Álvares ocupava a presidência de uma Instituição religiosa! Era ele, sem sombra de dúvida, a reencarnação de um juiz da temível inquisição espanhola.

Os espíritas de Uberaba e Sacramento não acreditavam que o presidente do Círculo Católico fosse capaz de uma atitude tão hostil. Quando, pois o jornal “Lavoura e Comércio” começou a ser distribuído no Triângulo Mineiro, muitos confrades se indignaram e alguns chegaram, mesmo, a pensar em desforra. Eurípedes Barsanulfo, porém, aconselhava:

– “Apaguem da mente a palavra vingança. Lembremo-nos de Jesus e oremos pelos nossos inimigos …
– Mas é preciso fazer a defesa! O senhor está em perigo, professor.
– Mas não pensem em atos de violência … Confiemos nos mensageiros de Jesus. Eles nos assistem.
Nossa melhor arma é sempre a prece. Irradiemos amor … “

O processo-crime pelo exercício ilegal da Medicina, porém, avizinhava-se. O Juiz de Direito Fernando de Melo Viana, que mais tarde se tornaria governador de Minas Gerais, de posse da denúncia despachara um ofício ao delegado Arnaldo Alencar de Araripe. Após considerações preliminares sobre a liberdade de cultos religiosos garantida pela Constituição Federal, adverte o
imparcial Juiz de Direito no referido ofício:

“Dadas estas instruções, vos requisito abrir inquérito para se apurar o que há de verdade e para que se não irrogue às autoridades uma inação criminosa, fugindo ao cumprimento do dever. Nestes fatos, porém, em que se envolvem pessoas respeitáveis das localidades como vereis pelos impressos juntos, é conveniente que os funcionários, que servem no mesmo ambiente sejam
afastados, para que tudo se apure e aclare com a imprescindível imparcialidade e sem paixões … “

O delegado, por sua vez, convocou o escrivão Adolfo Terra e deslocou-se para Sacramento, comarca, então, de Uberaba.
Eurípedes Barsanulfo por via mediúnica já sabia de sua vinda e convidou para testemunhar Manoel Correa, Lindolfo Fernandes, Antônio Gonçalves de Araújo, Maximiliano Cláudio Diamantino e Azarias Arantes. Toda verdade deveria ser proclamada no interrogatório’ ainda que comprometesse o médium.

A intimação foi entregue pelo escrivão Adolfo Terra: deveria o réu Eurípedes Barsanulfo comparecer no dia 22 de outubro, às dezenove horas ao paço municipal para depor.
Eurípedes Barsanulfo compareceu com as testemunhas.
Foram poucas as perguntas . porque, ao contrário do que o delegado esperava, o médium nada ocultou. Vejamos seu depoimento anotado pelo escrivão Adolfo Terra:

“Respondeu que nunca exerceu a Medicina e nem exerce e sim a mediunidade receitista por intermédio da qual prescreve o espírito de Adolfo Bezerra de Menezes medicamentos a quantos necessitam e procurem, os quais são gratuitamente e sem a mínima remuneração, nem pedidos ou exigências de gratificação, prodigalizados a todos.
E, novamente, nos autos a mediunidade é posta em evidência: Que acompanha o espírito do Dr. Bezerra de Menezes nas operações que tem procedido, conforme suas indicações, em tudo por tudo não agindo por si mesmo, senão que age como médium; que tem vários enfermos à procura da sua mediunidade para a recepção de socorros à sua saúde.”

Manoel Correa, português,com trinta e um anos de idade, viajante da loja de ferragens Silva & Parada, de Campinas, e que se casaria com Edirite, irmã de Eurípedes Barsanulfo, foi a primeira testemunha a ser ouvida pelo delegado Amaldo Alencar de Araripe; eis o seu depoimento:

“Disse que há quase dois anos sofre de uma erupção de pele que o tem feito correr os consultórios de grande número de médicos e várias termas, sem obter alívio; que achando-se de passagem nesta cidade de volta de Araxá, um amigo indicou-lhe o professor Eurípedes Barsanulfo, o que se deu há seis meses; que submetendo-se aos cuidados do referido professor, este receitou-lhe diversas pomadas para aplicações externas e várias drogas de sabor diferente, nunca lhe cobrando quantia alguma; que com a referida medicação, o depoente tem sentido consideráveis melhoras em sua saúde; que tem visto diversos doentes tratados pelo professor Barsanulfo, sabendo que o indivíduo Joaquim Sandoval, atacado de mania de perseguição e obsessão contra a fanulia, ficou completamente curado, depois de submeter-se aos cuidados do professor Barsanulfo.”

Lindolfo Fernandes era dentista e seu filho curado por Euripedes Barsanulfo estudava no Colégio Allan Kardec. Seu depoimento foi registrado pelo escrivão como se lê abaixo:

“Disse que é exato terem vindo e continuarem a vir pessoas de diversos lugares para se tratarem com o professor Euripedes Barsanulfo, que o faz gratuitamente não só quanto às consultas como também quanto aos remédios; que há cerca de três anos achando-se gravemente enfermo, em Uberaba, um seu filho, sem que obtivesse melhoras com o tratamento médico, durante cinco meses, procurou nesta cidade o professor Eurípedes Barsanulfo, que conseguiu a cura radical em pouco mais de um mês; que sofrendo há cerca de dezoito anos de várias manifestações mórbidas, entre as quais uma ferida próxima ao pavilhão auricular do lado esquerdo da face, recorreu depois de vários tratamentos improfícuos ao professor Eurípedes Barsanulfo, que obteve a sua cura em cerca de seis meses; que o tratamento consistia em medicações internas
e externas e aplicações de passes espíritas; que o depoente tem visto o referido professor fazer curativos, intervenções cirúrgicas e redução de fraturas, sabendo que o mesmo tem intervindo em diversos partos, sempre com a inspiração mediúnica do Dr. Bezerra de Menezes.”

Lindolfo Fernandes foi a única testemunha a ser reinquirida; certamente a seu próprio pedido, pois ao invés da cidade de Batatais citara no primeiro depoimento Uberaba no tópico referente à cura de seu filho – cura efetuada por Eurípedes Barsanulfo à distância. Aproveitou, então, o odontólogo a oportunidade para relatar outros fatos. Eis alguns dos que o escrivão Adolfo Terra anotou:

“Disse que os tratamentos espirituais empregados são feitos também no Colégio Allan Kardec, auxiliados pelos demais médiuns existentes no centro espírita, do qual é presidente o professor Eurípedes Barsanulfo; que os obsedados têm sido aqui tratados também com desvelo e que de entre muitos casos que tem presenciado, há um em Uberaba, de D. Maria Modesto, esposa do sargento Cravo, que aqui se tratou, tendo regressado para o seio de sua família no espaço de vinte dias; que também foi tratado um filho do depoente, quando em Batatais, portanto à distância e que desenganado, já obteve a cura e está freqüentando o Colégio Allan Kardec, que é aqui mantido pelo professor Eurípedes Barsanulfo, há dez anos; que sabe por observações que tem feito, que o professor Barsanulfo é médium e não médico, como querem alguns, e que tudo faz por amor à caridade, como verdadeiro apóstolo do bem, obedecendo a risco o que lhe determina o Dr. Bezerra de Menezes; que além dos doentes aqui tratados, também são muitos outros de fora, que pedem remédios por carta, só fornecendo nome, idade e residência e muitos têm sido curados admiravelmente.”

A terceira testemunha foi Antônio Gonçalves de Araújo, sapateiro, cujos filhos estudavam no Colégio Allan Kardec. Era primo de Eurípedes Barsanulfo.

 


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Pedimos vênia à Editora Espírita Correio Fraterno do ABC, para transcrever trechos do maravilhoso livro “Eurípedes Barsanulfo, o Apóstolo da Caridade”, do escritor Jorge Rizzini.

Fonte: Em Prol da Mediunidade

Pequena História do Espiritismo de Henrique Magalhães

 



 

 

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