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Esposa em apuros (um filho à última hora)
27 de outubro de 2013 Casa da Mãe Pobre – 50 anos de Amor
nossa-senhora-do-rosario

Reprodução Web


 


Em determinada ocasião fomos procurados por uma senhora que, em segredo, confiou-nos o seguinte:

Tinha-se consorciado em segundas núpcias, malgrado ter mais de 42 anos e duas filhas casadas. Seu segundo marido era marítimo, estando em viagem por países estrangeiros. Antes do casamento havia ele mostrado desejo de futuramente terem um filho do casal. Como ele era de tez escura e ela branca, pelos padrões naturais, dizia ele, o filho deveria ser mulatinho.

Continuando em sua narrativa, acrescentou que por amor ao marido havia-lhe omitido o fato de que não podia gerar, embora lhe prometesse que tudo faria para lhe oferecer a criança. Como ele deveria permanecer em viagem por mais de um ano, esperava ela durante esse tempo encontrar uma solução. Para esse fim, havia feito uma promessa à sua Santa predileta… Mas até aquele momento nada tinha conseguido. Fez-nos a seguir veemente apelo, para que lhe arranjássemos o filho tão ansiosamente esperado.

“Bem – respondemos, se aparecer alguma parturiente que recuse ficar com o filho, e tenha ele as características que a senhora deseja, nós a avisaremos” .

“Não posso esperar” – redargüiu ela, aflita. E continuou: ” Imagine o senhor a situação em que me encontro, meu marido, dias após o casamento, seguiu para a Holanda no navio em que trabalha, escrevendo-me logo que lá chegou. Após as saudações, suas primeiras palavras foram em saber se eu tinha engravidado, lembrando-me da promessa que lhe fizera. Acrescentava que poderia ser uma menina, mas ficaria mais satisfeito se fosse um menino”. Encarando-me bem nos olhos prosseguiu:

“Veja o senhor meu embaraço. Então veio-me a idéia de arranjar uma criança para fazê-lo feliz; tendo em vista esse detalhe, escrevi-lhe, afirmando que Deus tinha atendido aos nossos apelos, pois me encontrava em estado de gravidez.

As cartas sucederam-se, para lá e para cá. Sua segunda missiva vinha cheia de sonhos e regozijo. Em uma das minhas últimas cartas asseverei-lhe que tinha dado à luz a um menino, forte e bonitão, para satisfazer as suas constantes perguntas.

Para o meu desespero, acabo de receber uma carta dele avisando-me que desembarcará no Porto de Natal, precisamente daqui a oito dias, onde pretende morar, pois logo que desembarcar vai pedir aposentadoria. A missiva vem cheia de projetos e promessas, entre as quais relata-me que comprou roupinhas adequadas e brinquedos para o filhinho querido … ” Encarou-me de novo e implorou, já agora com copiosas lágrimas: “O senhor pode calcular a minha aflição!”

Respondemos-lhe, fazendo o seguinte comentário; “Por que não nos procurou há mais tempo? Quem sabe poderíamos atender ao seu apelo!” Ao que ela respondeu: “Ignorava a existência desta Maternidade. Já percorri todos os hospitais do Rio, sem conseguir meu intento. Por fim, alguém me falou na “Casa da Mãe Pobre” e eis-me aqui, fazendo-lhe veemente pedido. Poderá o senhor acalmar minha aflição!”

A pobre criatura torcia as mãos, denotando seu nervosismo.

Face a tão doloroso caso, pensamos e pensamos …

De repente lembramo-nos de um menino, mulatinho, que tinha nascido à época aproximada em que a desditosa mulher deveria ter dado à luz, segundo suas declarações. Essa criança tinha sido abandonada pela genitora, moça solteira, empregada em casa de família, alegando suas precárias condições.

Era seu primeiro filho. Constatando que suas afirmativas eram verdadeiras a Instituição tinha ficado com a criança no Berçário, aguardando o futuro.

Na papeleta foi colocado o seu endereço e os motivos que a levaram a abandonar o filhinho.

Informamos à peticionaria do nosso achado, levando seus olhos a brilhar de alegria. Mas acrescentamos que, primeiramente, ela tinha que pedir autorização ao Juizado de Menores, para ficar com a criança e registrá-la como filho. Naturalmente o Juiz pediria a presença da mãe legítima do garotinho, para ajuizar sobre o pedido. Para levar a efeito todas essas medidas precisávamos, possivelmente, mais de 15 dias.

“Ai meu Deus!” Desabafou, quase chorando. Voltando à carga declarou que não havia tempo.

Como prova mostrou-me a carta que o marido tinha-lhe escrito. E argumentava: “Por que não me entrega a criança desde já, uma vez que sua mãe a rejeitou?” Ao que lhe respondemos:

“Há um caso de consciência de permeio.” E meditamos novamente sobre as conseqüências que poderiam advir: 1º, a mãe da criança poderia mudar de idéia e vir buscar o filho; 2º, quem nos poderia garantir o contrário?

Enquanto perduravam essas cogitações, a mulher esperava ansiosa, pois vislumbrava no momento sua última tábua de salvação. Face a angústia que seu rosto demonstrava tomamos a seguinte resolução:

“Amanhã iremos falar com a senhora em sua residência. Até lá veremos o que se pode fazer”

Essa providência era necessária para verificar se a mulher estava dizendo a verdade.

Não poderia entregar a criança sem atender a essa medida prévia. E fomos comprovar no local se suas declarações eram verdadeiras.

Antes de entrar, fizemos uma vistoria no Edifício onde ela morava, que por sinal era quase novo. Depois verificamos o apartamento, com ampla sala, dois quartos e dependências. Fizemos várias perguntas sobre seu estado físico e civil, bem como de seu marido. “Qual sua futura aposentadoria?” Ao que ela respondeu não saber ao certo, mas seu marido ocupava um cargo de responsabilidade. “Possuía bens de raiz?” Respondeu que o apartamento que ocupavam era seu. Para comprovar foi buscar a respectiva escritura. Estava tudo em ordem.

Diante das provas recolhidas não tivemos mais dúvidas quanto ao fato de que ela pudesse assumir a responsabilidade da criança e registrá-la posteriormente como seu filho, tendo em vista que o menino ainda não havia sido registrado.

Após meditar por momentos sobre o intricado problema e suas facetas, explicamos-lhe nosso plano: dali partiríamos para Copacabana, a fim de tentar descobrir onde trabalhava a mãe do garotinho. Se conseguíssemos falar-lhe, traçaríamos o caminho a seguir, e voltaríamos à sua residência para tomar a última resolução. Ela concordou plenamente.

Dirigimo-nos a casa onde a genitora da criança trabalhava, no momento em que deu a luz o seu filhinho. Informaram que a moça não mais trabalhava no local, mas indicaram onde estava empregada. Seguimos para lá.

Depois de cumprimentá-la falamos sobre seu filho, perguntando-lhe se desejava ficar com ele, visto não mais poder permanecer na Maternidade. Respondeu que não tinha condições de assumir a responsabilidade do filho, pedindo-nos que o entregássemos a quem pudesse acolhê-lo e tomar conta dele. Falamos então sobre a senhora que desejava adotá-lo. Desde logo declarou que entregaria a criança.

Mais alguns esclarecimentos complementares e acertamos com ela que no dia seguinte a citada senhora iria buscá-la e, de acordo, partiriam para a “Casa da Mãe Pobre”, a fim de complementarmos o acordo feito.

Incontinenti, voltamos à casa da futura mãezinha, dando conta da nossa missão.

Emocionada e sem fôlego para falar caiu sentada em uma cadeira. Em vinte e quatro horas, com a ajuda de Deus, realizou-se o seu sonho, que há meses vinha tentando resolver sem nada conseguir.

No dia seguinte chegaram as duas na Maternidade “Casa da Mãe Pobre”, na hora combinada. A pretendente ficou aguardando no carro alugado, enquanto a genitora entrava na Maternidade e, acompanhada de uma enfermeira, foi ao Berçário apanhar o seu filho, depois de assinar o respectivo recibo regulamentar. Saindo, entrou novamente no automóvel, e as duas rumaram para Copacabana onde se despediram.

Um ano e tanto depois, recebemos carinhosa carta da atual mãe da criança, agradecendo a nossa intercessão para resolver o seu caso. Asseverou que foi Deus que a levou a nossa Instituição. Que o marido tinha chegado no dia certo, num carro cheio de presentes, para ela e o filhinho. “Foi um dia cheio para nós, comentava. Nunca sentira tanta felicidade! O garotinho parecia-se com o pai, o qual saía com ele diariamente, a passeio, todo eufórico e feliz.

Já fui à Igreja de Nossa Senhora do Rosário – informou ela – agradecer-lhe a sua ajuda e pedir-lhe que proteja a “Casa da Mãe Pobre”, através da qual recebi um presente do Céu.”

Crianças Abandonadas – Pelo regulamento da Entidade, protegíamos não somente as gestantes e parturientes mas também os recém-nascidos, inclusive os que eram abandonados na Maternidade. Estes mereciam especial atenção.

Algumas parturientes retiravam-se para seus lares deixando seus filhos nas Incubadoras. Tratava-se de crianças ligeiramente enfermas ou raquíticas, devido aos maus tratos ou fome porque passavam suas genitoras durante a gestação. Após dias ou meses de especiais cuidados o médico dava-lhes alta, dando o caso por terminado. Tinha chegado pois o momento entregá-las às suas mamães. Estas, em alguns casos não eram encontradas e jamais apareciam. Tinham-se mudado quase sempre para as favelas dos morros, sem deixar rastros ou endereços.

Aproveitavam aquela oportunidade para se livrarem do pesado fardo que, para elas, representava um mundo de dificuldades. Essas crianças ficavam num Berçário à parte aguardando o seu futuro; geralmente as agasalhávamos na Casa por vários meses até se recomporem completamente. Depois entravamos em ação para conseguir um casal honesto e capaz, que desejasse registrá-las, legitimando-as como filhos. Para esse fim tinham de pedir a aprovação do Juizado de Menores.

Esse trabalho de sindicâncias era levado a efeito pelo Presidente da Instituição, o qual jamais consentiu passar a tarefa a terceiros, tendo em vista a delicadeza do assunto.

EPÍLOGO

Foi assim que surgiu a oportunidade daquela afortunada mulher conseguir o seu filhinho. Sua carta tocou-nos o coração sensível. Pensamos em responder-lhe dando-lhe os parabéns, bem assim manter correspondência para, embora de longe, tomar conhecimento do petiz.

Abandonamos no entanto esse nosso desejo ao nos lembrar de que a missiva poderia cair nas mãos do marido o que possivelmente iria toldar a amizade entre os dois cônjuges, desfazendo aquele maravilhoso sonho.

Em sua infinita misericórdia Deus, nos proporcionou meios de resolver favoravelmente um caso que, inicialmente nos parecia insolúvel. Nossa Mãe do Céu os proteja.

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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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