Carmine Mirabelli


Capítulo XXIV


c-mirabelli

Foto: Acervo CMP
Carmine Mirabelli

Pelo artigo, publicado na Revista “O Reformador”, do mês de maio de 1991, de autoria de Antônio Lucena, a quem pedimos vênia, bem assim à distinta Diretoria da FEB, para transcrever.

“Chegou a ser internado num manicômio, em Juqueri (SP), para que a ciência médica examinasse sua suposta insânia. Depois de 18 dias de observações, foi declarado, por uma equipe de renomados psiquiatras, perfeitamente são. Os médicos disseram que os fenômenos produzidos por ele eram totalmente autênticos. Diante dessa comprovação, a grande imprensa, como “O Jornal de São Paulo”, “A Gazeta” e o “Estado de São Paulo”, tornou público os fatos inusitados que com ele ocorriam. inúmeros cientistas propuseram-se a fazer experiências científicas sob a direção de médicos, dirigidas pelo Dr. Everardo de Souza.

Os fenômenos produzidos por Carmine Mirabelli eram de fato extraordinários. Quando em transe ele falava vinte e oito línguas diferentes e escrevia em outras tantas; ainda em transe mediúnico, ele dissertava com critério e grande lucidez sobre Medicina, Direito, Sociologia, Economia, Política, Teologia, Psicologia, História Natural, Astronomia, Física, Filosofia, Lógica, Música, Ocultismo, Naturalismo, defendendo teses exaustivas sobre todos esses assuntos.

Mediunizado, escrevia, em vinte minutos, uma mensagem que ao natural levaria algumas horas. Na produção de efeitos físicos impressionava pelos fatos produzidos, como: levitação, transporte de objetos, desmaterialização de corpos orgânicos e inorgânicos, ruídos, pancadas, etc. Certa vez, materializou-se um Espírito em plena luz do dia, visto por dezenas de pessoas. Ele próprio se desmaterializou por vezes, voltando a se materializar a centenas de quilômetros.

Em meio a toda essa sorte de fenômenos, Mirabelli, de repente, foi tomado por Espíritos pintores e começou a pintar, em curto espaço de tempo, telas maravilhosas, a crayon, aquarela, óleo e outras modalidades. Em pouco tempo forma-se uma galeria com mais de 40 quadros, de famosos pintores do Além. São retratos, grupos, paisagens, flores, pássaros, animais, tudo de uma beleza sem par. Mirabelli nunca estudou pintura ou desenho. Não ficou só na pintura, também entrou pelo terreno da música, executando ao piano, sem conhecer música nem os teclados, obras de Wagner e outros músicos famosos, grande perfeição. Ao violino tornou -se virtuose quando incorporado pelo Espírito Paganini! Numa reunião em Santos, tocou várias peças ao violino, numa corda só, como em vida terrena fazia Paganini, em Paris. Tudo presenciado por uma plateia cultíssima e estupefata.

No terreno da poesia, produzia  maravilhas. Muitas das quais  musicou, sem conhecer música, nunca é demais repetir.

Em março de 1922, numa, sessão, na Academia de Estudos Psíquicos César Lombroso. Em São Paulo, à qual estavam presentes diversos cientista: pesquisadores da fenomenologia mediúnica, como o Dr. Eurico Góes, Dr. Antônio Azevedo, Dr. Carlos Pereira de Castro, Dr. Alfredo Navarro, Dr. Olegário Moura, Dr. José Gauzzelli e  tantos outros, começaram extraordinárias manifestações efeitos físicos, despertando em todos a maior atenção. Os objetos voavam e se cruzavam de um lado para o outro, havia efeitos luminosos, e, no meio de tudo isso manifestou-se o Espírito Dante Alighieri, que fez uma preleção em versos.

Carmine Mirabelli, ou Carlos Mirabelli, como ficou conhecido entre nós, nasceu no dia 2 de janeiro de 1889, na cidade de Botucatu (SP). Foram seus pais Luigi Mirabelli e Dona Christina Scacciata, ambos imigrantes italianos, radicados no Brasil, e bafejados pela fortuna.

Viveu Carmine Mirabelli os seus primeiros anos de vida cercado de desvelo e carinho. Descendente de ilustre família da Itália, teve, entre seus ascendentes, pelo lado paterno, o avô, Paschoal Mirabelli, afamado arquiteto; um tio, Roberto Mirabelli, deputado e grande advogado; como primos irmãos, o General Ernesto Mirabelli e o Dr. Giuseppe Mirabelli, tendo sido este último presidente da Real Corte Italiana; e um outro tio, Comendador Giuseppe Mirabelli, que desencarnou em Mar Del Plata, Argentina, deixando seus bens para Luigi Mirabelli. Uma herança de mais de 400 contos de réis, na época apreciável fortuna. Seu pai, homem de boníssimo coração, seguidor da doutrina luterana, com uma prole de 28 filhos cuidou de em educá-los. Pelo lado materno, basta dizer que o seu avô foi o Conde Raymundo Scacciata, homem ilustre e de grande projeção na corte italiana.

Carlos Mirabelli estudou com professores particulares, inclusive o francês e o italiano, para o acesso ao Curso Complementar. Posteriormente ingressou no afamado Colégio São Luiz, em Itu, dirigido por padres. Foi nesse colégio que começaram as primeiras manifestações, através de sua mediunidade, e que mais tarde assombrariam o mundo. Um dia o jovem Carmine Mirabelli passou a dissertar em latim, idioma que ignorava, sobre o tema: “Evolução e Involução”. O fato acabou por obrigá-lo a deixar o colégio.

Nessa altura, seus pais haviam sofrido sérios reveses e perdido quase toda a fortuna. Não podendo continuar os estudos, resolveu transferir-se para a Capital de São Paulo. Inteligente e ativo, procurou um amigo, que o colocou na Companhia de Gás. Pensando no bem-estar da família, desdobrou-se nas suas atividades, galgando postos cada vez mais elevados. Resolveu viajar para a Alemanha, onde dentro de sua especialidade, realizou altos negócios, trazendo para São Paulo novos e modernos equipamentos em camisas automáticas para lampiões de gás, as quais lhe renderam um bom dinheiro, permitindo-lhe recuperar um pouco a fortuna de seus pais.

Casou-se e, em 1913, ingressou na Cia. de Calçados Clark. Foi promovido à subgerência da firma, mas, em seguida, irromperam os inusitados fenômenos, que deixaram todos em polvo rosa. As caixas de sapatos começaram a voar, como se criassem asas; enorme balbúrdia, ninguém sabia de nada, nem ele próprio, que ignorava a sua mediunidade. “Coisas do diabo”, pensava a maioria. Foi chamada a polícia. O padre apareceu para exorcizar, e tudo continuava no mesmo. Sensacionalismo na imprensa, até que se descobriu que ele, Mirabelli era o provocador de tudo aquilo Foi logo dispensado da firma e tudo voltou ao normal. Por sua capacidade e conhecimento admitiram-no na  Cia. de Calçados Vilaça, repetindo-se ali os mesmos fenômenos, de forma assustadora. Concluíram que ele deveria ser internado num hospício. Foi internado no Sanatório de Juqueri, onde os médicos, os mais afamados de São Paulo em Psiquiatria, tendo à frente os doutores Filipe Ache e Franco da Rocha, em junta médica, puderam constatar sua boa sanidade mental. vendo nele o mínimo indícios de alienado mental. Deram-lhe alta.

Transferiu-se para o Rio Janeiro e nessa Capital continuaram os extraordinários fenômenos. Sua vida passou a  ser de verdadeiro martírio, pois além dos Espíritos amigos familiares, a sua mediunidade ensejava a presença de Espíritos menos esclarecidos, zombeteiros e brincalhões, que usavam de expedientes, para as mais incríveis peripécias, como as ocorridas na Casa Clark, sendo que ele próprio muitas vezes foi vítima de rudes agressões com ferimentos graves… Os Espíritos atrasados promoviam verdadeiras desordens. Objetos transportavam-se de lugar, chegando a quebrar-se. Contou o Dr. Clarlos Imbassahy que, certa vez, o hospedou em sua residência em Icaraí, Niterói, e de imediato começaram os fenômenos. Estavam todos na sala de visitas conversando, e de repente um espelho de cristal, com mais de um metro, que se encontrava no “hall” de entrada, atravessou a parede e foi cair no meio da sala em pedaços. Outros objetos já haviam voado das prateleiras, o que levou a Srª. Maria Imbassahy a solicitar que, pelo Amor de Deus, Mirabelli se transferisse para um hotel.

Carmine Mirabelli também foi pesquisado por famosos investigadores internacionais, ilustres homens de ciência, como:

Dr. Hans Driedsch, lente da Universidade de Leipzig (Alemanha); outro alemão, o químico Dr. Johan Reichenbach; o literato inglês, Douglas Ainslie, na oportunidade adido à Embaixada inglesa, em Paris; o Professor Tito Guarnieri, ilustre farmacêutico e químico, de Milão; Dr. H. H. Theunisse, holandês respeitado por suas investigações no campo psíquico. Todos esses investigadores permaneceram por longo tempo estudando a mediunidade do famoso médium brasileiro. A ciência médica o examinou exaustivamente, jamais comprovando uma fraude sequer.

Possuímos dois livros sobre Mirabelli: “Prodígios da Biopsíquica obtidos com o médium Mirabelli”, de autoria do Dr. Eurico de Góes, do Instituto Histórico Brasileiro, professor da Faculdade de Filosofia e Letras do Rio de Janeiro, Doutor em Hermetismo, “ad honores”, pela Escola Superior Livre de Ciências Herméticas de Paris, Diretor da Biblioteca Pública Municipal do Estado de São Paulo; e o opúsculo “O Médium Mirabelli Mistifica?”, do editor Miguel Karl, editado em 1929, que reuniu farta documentação, até mesmo depoimentos policiais, reportagens publicadas nos principais jornais de S. Paulo e do Rio de Janeiro, com testemunhos sérios de homens de ciência, inclusive da classe médica.

Mirabelli com a maior boa vontade permitia que se realizassem todas essas investigações, criando instituições para facilitar esse trabalho. Fundou a Academia Brasileira de Metapsíquica do Rio de Janeiro, o Centro de Estudos Psíquicos César Lombroso e o Instituto Psíquico Brasileiro, os dois últimos no Estado de S. Paulo.

Por diversas vezes escapou de desastres automobilísticos, graças ao seu conhecimento prévio do que iria acontecer. Viajava, um dia, para Jaboticabal (SP) a fim de realizar uma sessão, quando repentinamente pediu que todos se agarrassem, porque um carro em sentido contrário se chocaria com o seu. Diminuiu a marcha e dois minutos depois ocorreu o choque. Felizmente nada aconteceu de grave.

Os prognósticos infelizes tiveram o seu desfecho trágico; em 1º de maio de 1951, ele foi atropelado na Av. Nova Cantareira, em S. Paulo, desencarnando no desastre aos 62 anos de idade.

Pesquisando a vida de famosos médiuns, entre eles Daniel Dunglas Home, sobressai a de Carmine Mirabelli. Os fenômenos produzidos por sua mediunidade foram tão autênticos que nos levam a crer que ele está entre os maiores médiuns de efeitos físicos do Mundo.”

Nossas Observações:

Esse famoso médium dotado de raríssima mediunidade efeitos físicos. Parece impossível  a criatura desmaterializar-se e materializar-se noutro local. Caso idêntico foi levado a efeito por Antônio de Lisboa, mais conhecido como Antônio de Pádua, canonizado pela Igreja Católica.

Estava ele fazendo uma pregação no púlpito de uma igreja na cidade de Pádua, Itália. Em dado momento, baixou a cabeça e parou de falar por algum tempo. Inopinadamente, materializou-se em Lisboa, para defender o pai que, injustamente, estava sendo julgado de crime grave que não tinha cometido, e assim salvou o genitor. Logo após, tomou (corpo carnal no púlpito da igreja de onde tinha-se deslocado, e continuou a discursar.

A Igreja Católica não a mediunidade, embora esteja  provado que muitos dos seus membros canonizados médiuns de grande projeção.

Quanto aos lampiões a gás citados no artigo, cumpre-nos esclarecer que naquela recuada época ainda não havia eletricidade e até as ruas eram iluminadas por lampiões a gás.

Ainda alcancei esse tempo quando, de 1912 à 1914, do local onde eu residia, na Praça 11 de Junho, saía para a rua com um caixote de mantimentos à cabeça, mais ou menos às quatro horas da manhã, uma vez por semana. Subia pela Rua Senador Eusébio, ladeando o Rio Mangue, com destino à Rua Campos Sales, que desemboca na Rua Mariz e Barros. Naquele local havia um botequim, também chamado de café, onde eu deixava os mantimentos. As ruas que ladeavam o Mangue, Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, bem assim a Rua Mariz e Barros, eram iluminadas com lampiões a gás.

Carmine Mirabelli também trabalhou aqui, na Cidade do Rio de Janeiro, na Rua São José, em uma casa de calçados. Pelos mesmos motivos também o despediram, deixando-o em dificuldades.

Passou sua vida, tendo altos e baixos. Nasceu na opulência, pois seus pais possuíam grandes haveres, mas, no final dos seus dias, também curtiram dificuldade, e seu filho Carmine, Carlos, em português, foi obrigado a deixar os estudos e a trabalhar para a sua subsistência.

Sua mediunidade causou-lhe sérios dissabores, incluindo-se entre eles sua estada no Sanatório de Juqueri, no Estado de S. Paulo.

Todos nós, que estudamos o Espiritismo, conhecemos, em parte, as ações maquiavélicas dos membros dos espíritos das trevas, os quais inventam ciladas de todas as formas para inutilizar os médiuns de grande projeção, pois é também através deles que o Espiritismo está caminhando para a frente a passos de gigante. E essas criaturas, quer sejam ou não médiuns, mas que produzem meios de fazer avançar a Doutrina dos Espíritos, são visadas por essas falanges maléficas, que aproveitam todas as brechas para inutilizá-los.

É o que temos observado. E estamos alertando todos os espíritas de bom senso para não darem ouvidos aos que criticam os irmãos em Doutrina, induzindo as multidões a fazer mau juízo dos nossos irmãos médiuns, essas vítimas da maldade humana.

Que nosso Senhor e Mestre os ilumine!


 


 

Pelo artigo, publicado na Revista “O Reformador”, do mês de maio de 1991, de autoria de Antônio Lucena, a quem pedimos vênia, bem assim à distinta Diretoria da FEB, para transcrever.

 

Fonte: Em Prol da Mediunidade

Pequena História do Espiritismo de Henrique Magalhães

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