Campanha financeira em São Paulo

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                         Reprodução Web


 


Em 1958, levamos a efeito uma Campanha Financeira na Cidade de São Paulo. Éramos o portador de cartas de recomendação para algumas firmas indústrias, fornecidas por importante firma comercial do Rio, cliente das mesmas. Como todas as despesas eram por nossa conta, inclusive as passagens e estadia, e o dinheiro naqueles tempos escasseava, hospedamo-nos num hotel de terceira classe, cujo atendimento era razoável.

No primeiro dia de labor e para maior eficiência, pusemos em prática o seguinte método de trabalho: De manhã tomávamos café numa lanchonete próxima ao hotel, seguindo desde logo para os subúrbios,  onde se localizavam as fábricas que visitaríamos. As 11 horas as citadas fábricas fechavam para o almoço; nesse ínterim ingeríamos um lanche numa lanchonete na localidade e, às 13 horas, continuávamos as visitas aos chefes das indústrias. Às 17h30min  as fábricas fechavam e nosso trabalho era encerrado. Retornávamos ao hotelzinho e jantávamos na mesma lanchonete onde tomávamos o café da manhã.

Desde o primeiro dia, vínhamos notando regular movimento de mulheres pelos corredores do hotel. Achamos o fato muito natural, imaginando que acompanhavam os maridos em suas viagens de negócios. E o tempo ia correndo.

Já se tinham passado treze dias, quando estando eu recolhido ao quarto, fazendo o balanço do total arrecadado naquele dia, mais ou menos às 19 horas, bateram à porta do quarto. Estranhamos, visto não esperar visitas de nenhum amigo da cidade, de vez que nem tivéramos tempo de procurá-lo. Contudo fomos abrir. Era uma mulher dos seus trinta anos, de boa compleição física e o rosto agradável.

Estava com as duas mãos, uma de cada lado, apoiadas no portal. Logo que abrimos a porta, ela jogou o busto, volumoso por sinal, para dentro, e perguntou:

“Foi daqui que me chamaram?” Refizemo-nos da surpresa e respondemos:

“Deve haver engano. Não é aqui que a esperam”.

A mulherzinha simplesmente comentou:

“Está bem”. E foi bater à porta vizinha, que logo se abriu e tornou a fechar, depois que a mulher entrou.

Compreendemos então o motivo do vai-e-vem de várias mulheres andando pelos corredores. Isso levou-nos a pensar em mudarmos de hotel no dia seguinte. Contudo, refletirmos que estávamos quase no final da Campanha empreendida e não valia a pena tomar quarto noutro hotel por tão pouco tempo. Além disso, lembramo-nos de que nos charcos também nascem belas flores e frutos.

Fora esse detalhe, algumas daquelas criaturas tinham filhinhos pequenos e naturalmente não encontraram outro meio de ganhar a vida e ao mesmo tempo atender à prole, durante o dia. Entendemos, também, que não devemos ser juízes de ninguém. Inúmeros motivos hão de levar as criaturas a seguir por essa estrada, às vezes cheia de espinhos! Quem somos nós para julgar, se não sabemos das lágrimas que muitas delas derramaram quando se viram forçadas a enveredar por aquele tortuoso caminho …

Por outro lado, estaremos em condições de atirar “a primeira pedra”? Não somos por acaso, nós homens, os primeiros a empurrá-las para aquele abismo?

Pensando em todos esses dramas, terminamos a Campanha, hospedados ali mesmo e pedindo a Deus orientação para essas infelizes irmãs.

E três dias após, embarcamos para o Rio, dando graças ao Eterno Pai pelo que conseguimos angariar em benefício da “Casa da Mãe Pobre”.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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