A mulher que usava saias de renda

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              Reprodução Web


 


Passou-se o caso em 1975. Os médicos vínhamos pressionando para cobrarmos taxas às gestantes e parturientes pobres que as pudessem pagar. Éramos contra e continuamos com o mesmo pensamento, pois os funcionários que não têm prática de avaliar as criaturas, nem o coração bastante sensível para avaliar as desgraças alheias, passariam a cobrar dos que podem e também dos que não podem pagar. E muitas das gestantes e parturientes nem mesmo o necessário possuem para pagar o ônibus.

Portanto,continuamos sendo contra. E é assim que, felizmente, a “Casa da Mãe Pobre” tem vivido e também é assim que tem progredido, graças a Deus.

Depois  de algumas tentativas frustradas levadas a efeito nesse sentido, fomos procurados por um dos médicos, que dirigiam a turma do INPS. Era o Dr. Mário Ávila, que buscou-nos convencer da necessidade dessa medida. Respondemos-lhe que o dia em que não pudéssemos oferecer de graça o pré-natal e a internação às mulheres sem recursos, nesse dia a Instituição fecharia as suas portas.

Sumiram por muito tempo as pressões, até que … Tempos depois foi a vez de novo Diretor Médico, aliás um bom homem. Veio-nos informar que uma mulher vestida pobremente estava aproveitando-se do pré-natal das pobres e que na realidade ela nos ludibriava, porque  suas saias de baixo eram de renda. “Essa mulher é uma prova” – argumentou – “de que muitas são atendidas sem serem necessitadas.”

Mandamos logo buscar o nome e endereço da citada criatura.

No dia seguinte fomos fazer a sindicância. Morava numa das ruas que começam em frente do Estádio do Maracanã, RJ., e seguem até a Rua São Francisco Xavier.

Casa regular, embora maltratada. Recuada da rua cerca de três metros, mas sem jardim. Na direção da casa, em terreno ao lado, uma cerca de tábuas velhas. Batemos palmas, mas ninguém apareceu. Abrimos a tramela de um portão tosco de madeira e entramos. Nos fundos, grande terreno, com uma casa velha coberta de telhas, à direita, e, à esquerda, um barracão coberto de zinco. Batemos palmas novamente e então vimos sair da casa de telhas uma senhora idosa, com o cabelo desgrenhado e mal encarada.

“O que o senhor deseja?” perguntou. “Procuro uma senhora com o nome tal .. ” “Não mora aqui” – informou.

“Mas ela deu esta direção”, replicamos.

Já um tanto azeda e para reforçar suas declarações, chamou um ancião, homem humilde e de dorso curvado, perguntando-lhe se lá morava a tal mulher. Ele negou, afirmando que só morava Fulana de Tal, ou seja, outro nome diferente. E ela, cantando vitória, voltou a contestar-nos, dizendo:

“Está vendo? Essa mulher não mora aqui!” Compreendemos que a dupla estava encobrindo algo. E então jogamos a última cartada, replicando:

“Quem vai perder é ela. Eu sou da Maternidade “Casa da Mãe Pobre”.

Ante essa revelação, a mulher tomou nova atitude e emendou:

“Espere! E aqui que ela mora, sim”.

“Como é que há pouco não morava e agora a senhora afirma o contrário?”

E ela, já arrependida, esclareceu:

“O outro nome é apelido de “guerra” O nome verdadeiro dela é mesmo o que o senhor disse há pouco.”

De posse dessas informações, ordenamos:

“Chame-a, por favor.”

O velhinho foi chamá-la e lá veio a pobrezinha falar comigo. Roupas modestas, rosto de sofredora.

Perguntamos-lhe o nome. Era o mesmo que tinha dado na Instituição. Informou ser natural de pequena cidade mineira, cujo nome declinou. Que o marido a tinha abandonado e fugira com outra. Com dois filhinhos e não tendo onde ganhar a vida, veio para o Rio, na esperança de melhores dias. Aqui chegando e sem amigos, a única saída foi o meretrício …

Pedimos-lhe documentação como prova do que acabava de nos revelar. Aí ela foi ao barraco e trouxe a certidão de casamento.

Perguntamos-lhe se podíamos visitar o barraco, para obter dados mais detalhados, inclusive para averiguar se ela de fato possuía dois filhos, como tinha declarado à enfermeira da Maternidade. Ela acedeu prontamente.

Quando entramos pela cozinha, única entrada do barraco, sentimos imensa tristeza. Tratava-se de pequeno cubículo, de terra batida, que servia de cozinha; uma pia velha toda esburacada, pequena mesa e uma cadeira velha. Verdadeira miséria.  Naquele instante veio-nos à mente que aquela velhota explorava a pobre mulher.

Em seguida entramos por uma porta esburacada que dava para o único quarto existente, também de terra batida e coberto de zinco. Lá dentro fazia um calor infernal! Como ainda era cedo, 8:30 horas, dois garotinhos, de seis e oito anos, dormiam a sono solto.

Demos por terminada a sindicância e mandamos que a gestante continuasse a frequentar o ambulatório do pré-natal da Maternidade, embora usasse saias de renda por baixo.

E já a caminho fomos raciocinando o seguinte: as saias de renda serviram para ela se apresentar aos homens que a procuravam, no ganha-pão para os filhos. Só Deus sabe as verdadeiras razões que a levaram àquela vida. Seria por vontade própria ou prova por que teria de passar? Quem pode sondar o mistério das coisas?

E fizemos o seguinte paralelo: Enquanto muitas damas da média ou alta sociedade evitam filhos ou abortam-nos criminosamente, aquela infeliz mulher conservava no seu ventre o ser que Deus lhe confiou, para criá-lo e educá-lo junto aos outros dois que já possuía. Quanto tempo levaria naquela triste vida?

Por último, veio-nos à mente o seguinte aforismo: “As aparências enganam”  …

E foi assim que mais uma vez vencemos os médicos, no que diz respeito à criação de taxas.

Deus proteja a pobre mãe de saias de renda e aos seus filhinhos, é o que lhe almejamos, de coração.


 


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CMP

 

Fonte: Livro Casa da Mãe Pobre 50 anos de amor de Henrique Magalhães

 



 

 

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